Jalil Rezayee/EFE/EPA
Jalil Rezayee/EFE/EPA

Onde uma campanha de vacinação enfrenta o ceticismo, a guerra e a corrupção

Meio milhão de doses chegaram este mês ao Afeganistão, onde muitos insistem que o vírus não é real; os que querem a imunização temem que somente os bem relacionados a recebam

David Zucchino e Najim Rahim, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2021 | 13h00

CABUL, Afeganistão - Com cidadãos minimizando a pandemia, o Afeganistão prepara-se para distribuir seu primeiro lote de vacinas.

Meio milhão de doses da AstraZeneca-Oxford, produzidas por uma indústria indiana, foram entregues à capital, Cabul, pela Índia, no dia 7 de fevereiro. Mas sua chegada foi recebida com indiferença por muitos afegãos, que rejeitam as advertências do governo de que o vírus é uma ameaça à saúde pública.

A vacina da AstraZeneca-Oxford, barata e fácil de armazenar, está sendo entregue como parte do programa Covax, uma iniciativa mundial para compra e distribuição de vacinas a países pobres gratuitamente ou a um custo reduzido. No dia 15 de fevereiro, a Organização Mundial da Saúde autorizou o uso da vacina, que exige duas doses por pessoa, preparando o Afeganistão para começar sua campanha de imunização.

Testes globais concluíram que a vacina oferece proteção completa contra a doença grave e a morte. Mas a sua eficácia contra a variante do vírus constatada pela primeira vez na África do Sul está sendo questionada, depois que a vacina fracassou em um pequeno teste para impedir que os participantes do estudo pegassem formas fracas ou moderadas da covid.

A vacina chega enquanto o Afeganistão tenta combater uma segunda onda, e um número maior de afegãos continua levando uma vida normal como se o vírus não existisse. Muitas pessoas se recusam a usar a máscara e frequentam em grandes multidões bazares, supermercados, restaurantes e mesquitas, ignorando os cartazes de alerta da saúde pública afixados em toda parte.

Em uma nação empobrecida, devastada pela guerra, fome, pobreza e seca, um vírus invisível é considerado um mero engano.

“Evidentemente não vou tomar a vacina porque não acredito na existência do coronavírus”, declarou Muhibullah Armani, 30 anos, taxista da cidade de Kandahar, no sul do país.

Expressando um sentimento compartilhado por muitos afegãos, ele acrescentou: “Quando vejo as pessoas cobrirem a boca e o nariz com medo da covid, fico com vontade de rir delas”.

E mesmo entre os afegãos que acreditam que o vírus é real e querem ser imunizados, há pouca confiança  de que o governo, mergulhado em corrupção, distribuirá de maneira equitativa as escassas vacinas.

“Ela estará disponível apenas para a alta cúpula”, disse Khalil Jan Gurbazwal, ativista da sociedade civil  na província de Khost, no leste do Afeganistão.

Nizamuddin, ancião de uma tribo controlada pelo taleban na província de Faryab, no norte do país, disse que teme que a vacina seja levada por políticos e senhores da guerra bem relacionados.

“É comum no Afeganistão que até a ajuda de alimentos seja roubada por pessoas corruptas”, falou Nizamuddin, que como muitos afegãos se identifica apenas por um nome.

O gabinete do procurador-geral disse na quinta-feira que 74 autoridades do governo de cinco províncias foram acusadas de desvio dos fundos de combate ao coronavírus. Entre os acusados estavam ex-governadores de províncias e vice-governadores.

Na província de Kunduz, no norte do país, o administrador de um hospital disse às autoridades que a diretoria cobrava custos médicos para tratamentos de covid-19 para 50 leitos em um hospital que tem apenas 25, e embolsava os custos referentes a “funcionários fantasmas”, informou recentemente o Inspetor Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão.

“Esta prevaricação custa aos cidadãos afegãos não apenas em termos financeiros, mas em atraso no acesso a cuidados médicos que podem salvar vidas”, comentou a Embaixada dos Estados Unidos em um documento. No entanto, segundo muitos afegãos, a vacina é uma solução para um problema que não existe.

Enquanto o programa de vacinação começaria na terça-feira, a primeira dose foi administrada no palácio presidencial em Cabul a Anisa Shaheed, uma repórter de televisão que cobre a pandemia.

A distribuição da vacina em uma nação desesperadamente pobre, consumida pela agitação, é um desafio logístico assustador. Além de vencer as desconfianças do público e atravessar territórios perigosos, o Ministério da Saúde Pública precisa também cuidar da entrega da vacina em províncias remotas com estradas horríveis e infraestrutura primitiva.

A pandemia provocou um aumento dos casos de pólio no Afeganistão porque tornou mais difícil a ida das equipes da pólio a áreas distantes, disse Osman Tahiri, assessor de assuntos públicos do Ministério da Saúde, que registrou 56 casos de pólio em 2020, em comparação a 29 em 2019.

Mas igualmente preocupantes são os 305 casos de uma variante da pólio registrados no Afeganistão em 2020, em comparação a zero em 2019, disse Merjan Rasekh, diretor de conscientização pública do programa de erradicação da pólio do ministério.

Rasekh atribuiu grande parte do aumento dos casos da variante da pólio aos refugiados afegãos que retornaram do vizinho Paquistão. Em novembro, a OMS concedeu a aprovação de emergência para uma vacina contra a variante.

Enquanto enfrenta o aumento dos casos de pólio, o Tahiri disse que os trabalhadores da saúde que tentam distribuir a vacina contra o coronavírus, mesmo em áreas controladas pelo taleban, em que os militantes permitiram o funcionamento de clínicas administradas pelo governo. O taleban montou programas de saúde pública por causa da pandemia e distribuiu equipamento de proteção pessoal em suas áreas.

Mas Tahiri admitiu que a vacinação não conseguirá alcançar áreas tão amplas do país, onde  são mais intensos os confrontos entre as forças do taleban e as do governo.

Mil equipes de vacinação foram treinadas na semana passada, informou Tahiri. O ministério espera receber mais vacinas doadas. O Afeganistão, disse o médico, tem uma capacidade de armazenamento de 2 milhões de doses.

As primeiras irão para os trabalhadores da saúde e para as forças de segurança “que estão em risco por trabalharem em locais com grande concentração de pessoas”, explicou Tahiri, embora ainda não haja vacinas suficientes para todos os que pertencem a esta categoria. Os jornalistas também poderiam solicitar a vacina, acrescentou.

O Afeganistão registrou mais de 55 mil casos de coronavírus e cerca de 2.500 mortes relacionadas à covid-19, segundo o Ministério da Saúde Pública. Mas dada a limitação dos testes e de um sistema de saúde pública inadequado, os especialistas afirmam que o número real de casos e de mortes é exponencialmente maior. Um modelo da OMS calculou em maio que mais da metade dos supostos 34 milhões de habitantes do Afeganistão seriam infectados. O Ministério de Saúde Pública calculou no fim do ano passado que mais de 10 milhões de afegãos podem ter contraído o vírus.

Independentemente de os afegãos acreditarem que o vírus é real ou não, há uma fé profunda de que Alá determina o destino do crente.

Ahmad Shah Ahmadi, da província de Khost, disse que não há necessidade de tomar a vacina. “Os infiéis não acreditam em Deus, e é por isso que eles temem o coronavírus. Para os muçulmanos, há pouco perigo”, afirmou.

Mas Imam Nazar, 46, um camponês da província de Kunduz, contou que  maioria dos habitantes de sua aldeia acredita que o vírus é real porque vários aldeões morreram de covid. Ele e outros colegas estão ansiosos por receber a vacina, mas duvidam de que ela chegue até o seu lugarejo remoto.

“Este governo não mantém suas promessas”, disse. /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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