ONG abre arquivos da 1ª Guerra que registram violações

Comitê Internacional da Cruz Vermelha coletou dados de centenas de campos de prisioneiros espalhados pelos países em conflito

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2014 | 02h03

Há cem anos, a 1.ª Guerra eclodia na Europa. Mas os sons dos canhões ecoariam em locais bem distantes das fronteiras do Velho Continente. Pela Ásia, Oriente Médio e África, campos de detenção seriam erguidos por britânicos, alemães, franceses e otomanos e, pela primeira vez na história, uma verdadeira indústria dos prisioneiros de guerra seria criada, com campos montados do Japão ao Marrocos, do Usbequistão à Índia.

O Estado teve acesso aos arquivos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), em Genebra, que passou a coletar dados de centenas de campos de prisioneiros pelo mundo e visitar vários deles.

Se os acampamentos de prisioneiros nos países europeus se transformaram em museus anos depois, em diversas partes do mundo eles foram esquecidos.

Ao reunir a documentação, o CICV tenta revelar como o drama da 1.ª Guerra foi de fato "globalizado", muito antes de o termo ser cunhado.

Se muitos nesses acampamentos tentaram manter sinais de uma vida "normal", trabalhando, jogando futebol e fabricando instrumentos musicais, os relatórios revelam um cenário de doenças, mortes, violações dos direitos humanos e a perda de qualquer sentido de humanidade em muitos desses locais, em florestas tropicais, no frio siberiano ou em pleno deserto no Norte da África.

Ao todo, 65 milhões de soldados lutaram nos quatro anos de guerra, com uma estimativa de que 9 milhões teriam morrido. Segundo os documentos do CICV, outras 10 milhões de pessoas seriam feitas prisioneiras de guerra entre 1914 e 1918. Dessas, 2 milhões seriam civis, numa das principais provas de que a "guerra total" não distinguia militares e a população das cidades capturadas.

Os documentos oficiais e os relatos dos funcionários do CICV revelam como presos eram levados de um lugar a outro como meras mercadorias, obrigados a trabalhar em fábricas, em obras de infraestrutura e fazendas. Sua existência era fundamental.

Não apenas supriam a falta de mão de obra em alguns locais, mas também eram guardados por governos que esperavam que, no fim do conflito, poderiam trocar esses prisioneiros por seus cidadãos detidos pelos oponentes.

As violações ocorreram de ambos os lados e, ao ler o material, é difícil determinar quem teria sofrido mais.

Trabalhos forçados. O Império Britânico, por exemplo, criou um esquema pelo qual capturava prisioneiros otomanos na Mesopotâmia - o atual Iraque - e os conduzia até a Birmânia, atual Mianmar, para trabalhos forçados. Para chegar ao campo de Thayetmyo, no norte de Rangum, os relatos do CICV apontam para um périplo de meses a que eram submetidos os prisioneiros.

O primeiro ponto de parada para os prisioneiros era a cidade de Basra. Ali, ficavam por semanas em observação e logo seguiam em barcos até Mumbai ou Karachi. Os prisioneiros seriam, então, colocados em trens e transportados até Calcutá, na Índia.

Uma vez na cidade portuária, embarcavam uma vez mais em um navio a vapor na direção de Rangum. Finalmente na Birmânia, seguiam viagem pelo Rio Irrawady até Thayetmyo. O drama para muitos estava apenas começando. Numa visita do CICV ao local em 1916, a entidade constatou que a taxa de mortalidade dos prisioneiros de Thayetmyo era alta demais.

Disenteria, malária e tifo tinham matado naquelas semanas 76 de um total de 3,5 mil prisioneiros. Uma delegação americana visitou o local e considerou a taxa de mortalidade de 2,17% "muito elevada".

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