ONG acusa China de usar armas letais contra tibetanos em 2008

Relatório desmente Pequim que diz ter lidado com protestos de acordo com padrões internacionais

BBC

22 de julho de 2010 | 10h40

PEQUIM - As forças de segurança da China agrediram brutalmente os manifestantes pró-Tibete e usaram armas letais contra eles nos protestos de 2008, denunciou a ONG de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) nesta quinta-feira, 22, por meio de comunicado. O grupo ainda diz que muitos dos manifestantes foram presos e torturados.

 

O relatório da ONG é baseado em entrevistas realizadas com 203 tibetanos refugiados fora da China. Pequim culpa os tibetanos "separatistas" por incitar a violência e nega ter usado força excessiva.

 

Os protestos de março de 2008 foram os piores no Tibete em cerca de 20 anos. A onda de violência teve início no dia 14, em Lhasa, logo depois do aniversário de uma revolta fracassada contra a China em 1959.

 

A China alega que os manifestantes mataram pelo menos 19 pessoas, a maioria deles chineses da etnia majoritária han, mas exilados tibetanos dizem que as forças de segurança mataram dezenas de pessoas que protestavam.

 

Posteriormente, a violência se espalhou para áreas fora do Tibete. Por conta disso, a região foi fechada para estrangeiros e cerca de 10 mil soldados chineses foram enviados à área.

 

Tiroteio

 

No relatório, a HRW citou quatro ocasiões nas quais as forças de segurança abriram fogo contra os manifestantes - em Lhasa, no dia 14, e as outras três em áreas da etnia tibetana da província de Sichuan nos dias subsequentes.

 

O grupo incluiu depoimentos de manifestantes em Lhasa e outras localidades que disseram ter visto pessoas serem chutadas ou agredidas com bastões elétricos e armas pela polícia.

 

Pema Lhakyi, um dos tibetanos presentes nos protestos, disse estar perto da praça Barkor, em Lhasa, no dia 14 de março. "Os soldados não haviam aparecido até o a tarde daquele dia. Podíamos protestar e gritar o quanto quiséssemos", disse. "Quando eles apareceram, porém, usaram gás lacrimogêneo. Um cilindro de gás atingiu minha perna e não pude mais andar. Eles abriram fogo e vimos duas pessoas morrerem bem na nossa frente", continuou.

 

Sophie Richardson, diretora da advocacia para a Ásia da HRW, disse que o depoimento das testemunhas mostra "as evidências oficiais do uso de armas letais contra os manifestantes". "Esse relatório decisivamente rejeita as alegações do governo chinês de teria lidado com os protestos de acordo com as lei locais e os padrões internacionais de segurança", conclui.

 

As testemunhas que foram presas disseram ter apanhado e ficado em celas tão cheias que eles não podiam nem sentar e passavam fome. Alguns disseram ter sido aconselhados para admitir terem sido pagos para protestar pelo líder espiritual tibetano, o dalai-lama.

 

A HRW disse que condenou a violência contra os tibetanos e pediu uma investigação internacional sobre os eventos de março de 2008 e uma maior abertura do Tibete para a imprensa e observadores internacionais.

 

A China não comentou o relatório, mas já disse que usou as medidas apropriadas para restaurar a ordem e que a maioria dos mortos em Lhasa eram vítimas dos manifestantes tibetanos.

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