Press Office Andres Manuel Lopez Obrador/Handout via Reuters
Press Office Andres Manuel Lopez Obrador/Handout via Reuters

ONG afirma que México maquiou índices de violência

Organização Alto al Secuestro aponta que governo registrou 452 sequestros a menos ao fazer a reclassificação dos crimes

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 19h40

CIDADE DO MÉXICO - A organização não governamental mexicana Alto al Secuestro (parem os sequestros, em tradução livre) informou, ontem, que o país registrou 2.066 ações de sequestro nos primeiros 13 meses do governo do presidente Andrés Manuel López Obrador e acusou a gestão de fraudar o número de crimes em seus relatórios oficiais.

“Desde 1.º de dezembro de 2018, no dia em que López Obrador assumiu, até o último dia de dezembro de 2019, 2.066 inquéritos foram registrados pelo crime de sequestro”, explicou a presidente da organização, Isabel Miranda de Wallace, em entrevista coletiva.

De acordo com a presidente da ONG, o número total de vítimas foi de 2.577 – para cada inquérito pode haver mais de uma vítima. No mesmo período, 1.797 acusados foram presos. “Infelizmente, ainda temos pouca eficácia para deter suspeitos e nem sequer temos um detido para cada pessoa sequestrada”, afirmou.

Miranda de Wallace disse ainda que, pelas contas da ONG, o país tem uma média mensal de 159 sequestros (37 semanais ou 5 ações diárias).

A ativista acusou o governo mexicano de alterar os números de diferentes crimes. “É preocupante e alarmante que o governo tenha mudado os números. Houve a reclassificação de quase 482 sequestros”, explicou. Segundo ela, 92% dessas mudanças de tipificação dos crimes ocorreram na Cidade do México, em Tabasco e em Veracruz.

Segundo Miranda de Wallace, a organização que preside descobriu que as mudanças de classificação dos crimes começaram a ocorrer em agosto. Como exemplo, a ativista relatou um caso de um roubo de carro na Cidade do México, onde seus ocupantes foram sequestrados, mas o crime acabou sendo tipificado apenas como roubo comum de veículo.

Segundo a ativista, os casos mais emblemáticos de mudança na tipificação dos crimes ocorreram na Cidade do México, onde houve a reclassificação de 348 sequestros.

De acordo com as estatísticas oficiais de 2019, apresentadas há uma semana pela Secretaria Executiva do Sistema Nacional de Segurança Pública (Sesnsp), foram contabilizadas 1.614 vítimas de crimes de sequestro, 55 a mais do que em 2018, quando foram registrados 1.559 casos – um aumento de 3,5%.

A presidente da ONG disse que o dado oficial do governo “representa o grande número de sequestros que deixaram de ser relatados”. “(De qualquer forma) É inegável que o crime continua a aumentar”, disse.

Homicídios dolosos

No ano passado, o México bateu um recorde de assassinatos dolosos (quando há intenção de matar), 34.582, conforme dados oficiais divulgados na semana passada. O número é o mais alto desde 1997, o primeiro ano em que este registro começou a ser feito.

De acordo com as estatísticas oficiais, em 2019, o mês com o número mais alto de homicídios foi junho, com 2.993 vítimas, detalhou o relatório do Sesnsp. Em 2018, os assassinatos já haviam batido um recorde, com um total de 33.743 homicídios intencionais. 

A soma de 2019 equivale a uma média de quase 95 assassinatos por dia no México, um país atormentado por uma onda de violência que só aumenta desde 2006, quando a guerra às drogas se tornou militarizada. 

Desde então, quase 275 mil pessoas foram mortas no país, segundo dados oficiais que não detalham quantos desses casos estariam relacionados ao crime organizado. 

Segundo o último relatório oficial, outras 61 mil pessoas desapareceram desde a década de 1960, mas com um aumento significativo desde 2006. / EFE e AFP

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