ONG pede operação humanitária para evitar novas tragédias

Muitas mortes poderiam ter sido evitadas se missões de resgate ainda estivessem sendo feitas, diz Anistia Internacional

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2015 | 02h04

Na véspera da reunião de cúpula da União Europeia sobre a imigração, a Anistia Internacional (AI) pediu que as autoridades lançassem uma operação humanitária para evitar novas tragédias entre a África e a Europa, como a que matou mais de 800 pessoas no fim de semana.

Segundo a ONG, a principal causa das mortes foi a substituição da operação Mare Nostrum, para socorrer os imigrantes em barcos à deriva, pela operação Triton, com um perfil repressivo, para impedir a chegada de estrangeiros e não socorrê-los em primeiro lugar.

Além disso, a ONG alerta que o número recorde de mortos no mar é uma consequência da maior repressão a imigrantes que tentam chegar à Europa por vias terrestres, por Grécia, Espanha e Bulgária. Para Jean-François Dubost, autor do estudo Europa: os Naufrágios da Vergonha, o Mediterrâneo tornou-se a única alternativa para essas pessoas. Segundo ele, os imigrantes ilegais fogem da guerra, da miséria ou da perseguição política ou religiosa em seus países.

A ONG alega que parte das mortes "poderia ter sido evitada se a operação Mare Nostrum estivesse em curso". O patrulhamento salvou mais de 150 mil vidas em 2014, mas foi substituído pela Triton em novembro.

Diante de tragédias recentes, a fiscalização foi intensificada, ainda que de maneira precária. Mesmo assim, mais 220 imigrantes foram resgatados ontem do mar quando estavam à deriva em dois botes infláveis, a 65 quilômetros da costa da Líbia. "O fim da Mare Nostrum não reduziu o número de partidas", diz Dubost, referindo-se aos embarques na África e no Oriente Médio. "Podemos até mesmo considerar que o fim da operação está na origem do aumento do número de afogamentos."

O relatório ressalta que, desde então, 25% das operações de salvamento estão sendo feitas por navios comerciais que não estão preparados para o socorro rápido, mesmo que sejam obrigados a prestar auxílio caso sejam contatados ou avistem uma embarcação em dificuldade. Diante de milhares de mortos desde o início do ano, a ONG pede um plano europeu para evitar novas tragédias.

Em razão do naufrágio, e diante de uma cúpula da UE sobre o tema, a AI antecipou em uma semana a divulgação de seu relatório sobre a migração no Mediterrâneo. A ideia é pressionar os líderes europeus, que se reúnem hoje em Bruxelas.

O assunto ainda provoca divergências entre os europeus. Para a Grã-Bretanha, seria um erro voltar a socorrer os imigrantes em alto mar, sob pena de incentivar mais travessias ilegais. Responsável pela operação Triton, a agência de fiscalização de fronteiras do bloco, a Frontex, se opôs a essa medida. Por outro lado, o premiê da Itália, Matteo Renzi, que já pediu uma intervenção militar na Líbia, convocou os membros da UE a combater os "mercadores de escravos do século 21" para enfrentar o problema.

A pressão de líderes internacionais, como o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, que acusou a Europa de deixar os imigrantes morrerem, e da opinião pública, chocada com mortes, deve obrigar os governos europeus a anunciar a ampliação da operação Triton, que retomaria a função de salvamento no Mediterrâneo. Além disso, as operações devem ser expandidas para além dos limites europeus e se aproximar mais da costa africana, onde ocorre grande parte dos naufrágios.

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