ONGs protestam contra repressão em Davos

Não foi apenas nas ruas cobertas de neve da pequena cidade alpina de Davos que a globalização provocou conflitos neste sábado. No protegido interior do Centro de Convenções, o clima também esquentou quando representantes de algumas das diversas organizações não-governamentais (ONGs) convidadas para participar do Fórum Econômico Mundial protestaram vigorosamente contra as medidas adotadas pela polícia suíça, apoiadas pelos organizadores do encontro, em reação às manifestação anti-globalização programadas para este sábado.Segundo Jeremy Rifkin, presidente da ONG americana Fundação sobre Tendências Econômicas, os representantes da sociedade civil convidados ao Fórum tomarão uma decisão conjunta sobre sua reação aos eventos deste sábado. Ele não descartou que as ONGs simplesmente abandonem o Fórum, mas disse esperar que a decisão "seja um passo à frente, e não para trás" no diálogo entre os representantes empresariais e governamentais reunidos em Davos e a sociedade civil. Presente à entrevista coletiva na qual as ONGs divulgaram o seu comunicado de protesto, o diretor-gerente do Fórum, Claude Smadja, se disse "insultado" pelas críticas e acusações dos representantes da sociedade civil. No encontro, segundo Smadja, há representantes de 69 ONGs. Para Rifkin, a proibição pela polícia suíça da manifestação programada pelos militantes anti-globalização para hoje é um precedente perigosíssimo. "Os manifestantes foram proibidos de expressar pacificamente seus pontos de vista, e eu peço à polícia suíça e aos organizadores deste encontro que abram os portões; se as pessoas querem portar bandeiras e cartazes, este é o seu direito". Vandana Shiva, da ONG Fundação de Pesquisa para a Ciência, ligada a questões tecnológicas e ecológicas, disse que neste sábado, pela primeira vez na sua vida, foi agredida por policiais, quando tentava passar pelas barreiras armadas em torno do Centro de Convenções. "Fui atacada duas vezes", ela denunciou. Com a voz embargada, Shiva acusou o governo suíço de mostrar pendores militaristas e tendências fascistas na forma como lidou com os protestos em Davos. Contestada por Smadja, ela disse que "nenhuma tendência é claramente visível no seu início", acrescentando que é justamente no começo que se deve combatê-las. Shiva também associou a atitude mental por trás da imposição de políticas econômicas impopulares a países em desenvolvimento, pelos organismos multilaterais e nações ricas, ao crescente emprego da força para garantir que reuniões como a de Davos, da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial (Bird), sejam realizadas sem a interferência das pessoas que combatem a globalização. Ela louvou o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, dizendo que a dimensão social é mais importante do que a econômica ou governamental. "A participação na sociedade civil é que define nossa identidade mais profunda. Os negócios e os governos são fenômenos decorrentes", disse Shiva. Lori Wallch, da Vigilância dos Cidadãos Públicos sobre o Comércio Global ("Public Citizen Global Trade Watch"), trouxe informações mais concretas sobre o conflito. Segundo Wallch, funcionários da polícia suíça a informaram que viajantes dirigindo-se para Davos foram sistematicamente expulsos de trens. O critério, segundo ela, que teria sido admitido por alguns dos próprios policiais, era o de retirar dos trens pessoas "que não parecessem normais". Este método, inclusive, teria levado à repatriação de um professor convidado para um dos seminários do Fórum.Na mesma linha das críticas de Shiva, Wallch atacou o fato de que a próxima reunião da OMC acontecerá no Qatar em novembro, o que, para ela, é uma forma de evitar os protestos que perturbaram a reunião de Seattle, em novembro de 1999. "O Qatar está no topo de qualquer lista dos países do mundo que mais desrespeitam o livre direito de manifestação", disse. Smadja, representando o Fórum Econômico Mundial, qualificou como insulto à sua nacionalidade suíça (onde não nasceu) o fato de o país ter sido acusado de agir com tendências militaristas e fascistas. Ele lembrou que a Suíça é um raro país a ter democracia direta.

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