Ônibus evoca apartheid em cidade no interior da Itália

A sombra do apartheid, o regime segregacionista que isolou brancos e negros na África do Sul entre 1948 em 1990, paira desde março no sul da Itália. Na cidade de Foggia, a 380 quilômetros de Roma, a prefeitura criou uma linha de ônibus, a 24/1, exclusiva para transportar imigrantes africanos - quase todos negros - até o Centro de Acolhimento de Estrangeiros de Cara, mantido pelo Ministério do Interior. Já os moradores italianos fazem o mesmo trajeto em separado, na linha 24.

AE, Agencia Estado

14 de setembro de 2009 | 08h13

A adaptação foi criada pela ATAF, a empresa de transporte público do município e é defendida pelo prefeito Orazio Ciliberti, que justificou a iniciativa ao jornal "La Repubblica" alegando questões de "ordem pública". Segundo a autoridade, parte dos 154 mil moradores da capital da região de Puglia estaria em atrito com os cerca de 800 imigrantes que residem no centro, situado a 15 quilômetros da cidade. Aos estrangeiros recaem constantes acusações de roubos e crimes. "Não se trata de racismo, mas da possibilidade de criarmos um serviço melhor. Ninguém impede os imigrantes de caminhar dois quilômetros a mais e pegar um outro ônibus até o centro", disse Ciliberti, político de centro-esquerda.

A prática, contudo, difere do discurso, conforme o Estado constatou. No interior dos ônibus para estrangeiros não há brancos. A linha 24/1 - cujo nome original, 24/i, de "imigrantes", foi substituído após protestos de organizações não-governamentais (ONGs) - faz o mesmo trajeto que a linha 24, entre o centro e o distrito de Borgo Mezzanone. No fim, há apenas uma extensão de dois quilômetros, que liga o distrito ao Centro de Acolhimento de Estrangeiros de Cara, apelidado, por ironia, de "campo". Nos veículos identificados com o número 24/1, os imigrantes não pagam passagem, enquanto pagariam nos ônibus para brancos. Além disso, ele não faz paradas no caminho, seguindo diretamente para o centro, o que impede moradores locais de utilizar o serviço.

Entre os imigrantes, que dependem do parecer do governo para serem aceitos na Europa, as críticas ao ônibus são raras. Em lugar de protestos, há silêncio ou elogios à amabilidade dos seguranças do centro de acolhimento. O presidente da Associação de Comunidades Estrangeiras (Asci), Habib Ben Sghaier, protesta contra a iniciativa da prefeitura, que criou a linha. "Não é assim que se faz integração. Isso é racismo."

Discriminação

Os imigrantes mais rejeitados da Itália não são, paradoxalmente, clandestinos. Os ciganos e romenos - a maior parte com passaporte europeu e autorização para viver em qualquer país-membro da União Europeia desde 2007 - são o alvo central da indignação dos italianos, que os associam a assassinatos, tráfico de drogas e prostituição em grandes cidades do país, como Turim e Nápoles. A insatisfação com seus vizinhos do Leste é tamanha que há dois anos uma lei autoriza repatriar cidadãos europeus "por razões de segurança pública". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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