Ônibus italiano evoca apartheid

Cidade de Foggia adota linha de coletivo exclusiva para transportar imigrantes africanos, a maioria negros

Andrei Netto, FOGGIA, ITÁLIA, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

A sombra do apartheid, o regime segregacionista que isolou brancos e negros na África do Sul entre 1948 em 1990, paira desde março no sul da Itália. Na cidade de Foggia, a 380 quilômetros de Roma, a prefeitura criou uma linha de ônibus, a 24/1, exclusiva para transportar imigrantes africanos - quase todos negros - até o Centro de Acolhimento de Estrangeiros de Cara, mantido pelo Ministério do Interior. Já os moradores italianos fazem o mesmo trajeto em separado, na linha 24.

A adaptação foi criada pela ATAF, a empresa de transporte público do município e é defendida pelo prefeito Orazio Ciliberti, que justificou a iniciativa ao jornal La Repubblica alegando questões de "ordem pública". Segundo a autoridade, parte dos 154 mil moradores da capital da região de Puglia estaria em atrito com os cerca de 800 imigrantes que residem no centro, situado a 15 quilômetros da cidade. Aos estrangeiros recaem constantes acusações de roubos e crimes. "Não se trata de racismo, mas da possibilidade de criarmos um serviço melhor. Ninguém impede os imigrantes de caminhar dois quilômetros a mais e pegar um outro ônibus até o centro", disse Ciliberti, político de centro-esquerda.

A prática, contudo, difere do discurso, conforme o Estado constatou. No interior dos ônibus para estrangeiros, não há brancos. A linha 24/1 - cujo nome original, 24/i, de "imigrantes", foi substituído após protestos de ONGs -, faz o mesmo trajeto que a linha 24, entre o centro e o distrito de Borgo Mezzanone. No final, há apenas uma extensão de dois quilômetros, que liga o distrito ao Centro de Acolhimento de Estrangeiros de Cara, apelidado, por ironia, de "campo". Nos veículos identificados com o número 24/1, os imigrantes não pagam passagem, enquanto pagariam nos ônibus para brancos. Além disso, ele não faz paradas no caminho, seguindo diretamente para o centro, o que impede moradores locais de utilizar o serviço.

Entre os imigrantes, que dependem do parecer do governo para serem aceitos na Europa, as críticas ao ônibus são raras. Em lugar de protestos, há silêncio ou elogios à amabilidade dos seguranças do centro de acolhimento.

Elvis Samano e Kyei Darkwa, ambos de 20 anos, pagaram US$ 1 mil cada para ingressar em um bote entre Trípoli, na Líbia, e a Ilha de Lampedusa, na Itália. "Os italianos são gentis", disse Samano. O imigrante espera receber o status de refugiado em um mês. "Queria ficar na Itália, mas não tenho trabalho. Aceito qualquer coisa na Europa." Edwin Egemb, de 35 anos, mostra-se envergonhado ao ser questionado sobre a linha 24/i. Esboça uma manifestação forte, mas interrompe a frase: "Temos de aguentar." À espera do asilo político desde abril, ele reconhece apenas que o isolamento da sociedade de Foggia não ajuda no processo de integração, nem no aprendizado do idioma ou na busca de emprego. O presidente da Associação de Comunidades Estrangeiras (Asci), Habib Ben Sghaier, protesta contra a iniciativa. "Não é assim que se faz integração. Isso é racismo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.