Federico Parra/ AFP
Federico Parra/ AFP

Ônibus se transformam em 'casas de câmbio sobre rodas' na Venezuela

Sistema de transportes é mais um sintoma da agonia do dinheiro no país sul-americano, onde a nota de maior valor, 50.000 bolívares, equivale a apenas três centavos de dólar

Esteban Rojas, AFP

05 de fevereiro de 2021 | 11h00

CARACAS - Uma mulher com um dólar na mão aguarda na fila para subir no ônibus. O motorista cobra e entrega como troco um maço de notas venezuelanas desgastadas, que parecem condenadas a se extinguir. A operação se repete continuamente.

"Nos tornamos casas de câmbio", comenta à AFP Marcelo Moreno, enquanto dirige seu veículo pelas ruas de Caracas.

É mais um sintoma da agonia do dinheiro no país sul-americano, onde a nota de maior valor, 50.000 bolívares, equivale a apenas três centavos de dólar. Não serve para comprar nada, com um valor dissolvido pela hiperinflação e a violenta e constante desvalorização da moeda local.

Em uma economia que cumpriu sete anos consecutivos de recessão, os venezuelanos se refugiaram no dólar apesar do controle de câmbios vigente desde 2003 - flexibilizado nos últimos meses -, assim como no peso colombiano e no real brasileiro em áreas fronteiriças.

Enquanto a dolarização informal avança, a qual o presidente socialista Nicolás Maduro chama de "válvula de escape", o comércio se vê obrigado a usar exclusivamente mecanismos eletrônicos para cobranças em bolívares, inclusive para pequenas operações como comprar um simples pão.

O transporte, encurralado, é o único setor que ainda utiliza de forma cotidiana os bolívares em nota.

Os bancos entregam um máximo de 400.000 bolívares diários e os caixas eletrônicos, em sua maioria, estão fora de serviço.

Diante das dificuldades para encontrar dinheiro, as pessoas pagam pelo dólar cerca de 30% menos que as cotações oficiais.

Maduro, que promove a "digitalização total" dos pagamentos na Venezuela, prometeu aos passageiros sistemas de cartões magnéticos que passam por um leitor para as cobranças; mas essa opção está muito longe de abranger a todos.

De qualquer forma, "não se trata de digitalizar pagamentos. Isso não resolve nada. O problema da raiz se mantém: o Banco Central continua monetizando o déficit (...), e o governo em vez de corrigir os desequilíbrios da economia, os aumenta", explica à AFP o economista Jesús Casique.

Das transações comerciais na Venezuela, 65,9% são feitas em dólares. No entanto, metade da população não tem acesso regular à nota verde, segundo a empresa privada Ecoanalítica.

O fenômeno, alerta Casique, abre brechas sociais. "Muitos ficam excluídos (...). Para alguns, (com a dolarização) é mais fácil pagar um mercado, mas outros estão vasculhando o lixo para encontrar o que comer", comenta./ AFP

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