EFE/EPA/YAHYA ARHAB
EFE/EPA/YAHYA ARHAB

ONU acusa monarquia saudita e rebeldes de crimes de guerra no Iêmen

Relatório preparado por grupo de especialistas analisou abusos cometidos no conflito iemenita; documento afirma que coalizão liderada pela Arábia Saudita é responsável pela ‘morte indiscriminada de civis’

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 04h00

A coalizão liderada pelo governo da Arábia Saudita seria responsável por crimes de guerra no Iêmen, incluindo a morte indiscriminada de civis, tortura, abusos sexuais e até o recrutamento de menores. Essas são as conclusões de uma investigação preparada por um grupo de especialistas da ONU que teve como função examinar o que a entidade chama de “a maior crise humanitária” do mundo. 

Documentos obtidos pelo Estado, e divulgados nesta terça-feira, 28, pela ONU em Genebra, revelam que o conflito levou 22 milhões dos 29 milhões de habitantes do país a pedir socorro humanitário. Ao menos 8 milhões estariam à beira da fome. 

A crise no Iêmen começou em 2011, quando a Primavera Árabe varreu do mapa o presidente Ali Abdullah Saleh, que estava no cargo desde 1978. O vácuo de poder reabriu disputas internas e o país se tornou palco de uma guerra entre três lados: o establishment, agora sob comando de Abdrabbuh Mansur Hadi, vice de Saleh, as milícias houthis, que são xiitas e têm apoio do Irã, e a Al-Qaeda.

Quando os houthis estavam consolidando a vitória, em 2015, os sauditas formaram uma coalizão com Emirados Árabes, Egito e outros países árabes para apoiar Hadi. Segundo o levantamento, desde a entrada da coalizão, 16 mil civis morreram ou foram feridos em combates. 

As conclusões deixam clara a dimensão das acusações contra Riad. “O grupo de especialistas tem base suficiente para acreditar que o governo do Iêmen, os Emirados Árabes e a Arábia Saudita são responsáveis por violações de direitos humanos, incluindo privação ilegal do direito à vida, detenção arbitrária, estupro, torturas, desaparecimento forçado, recrutamento de menores, violações às liberdades econômicas e ao direito à saúde”, indica o documento. 

Um dos exemplos usados pelos especialistas é o excessivo número de bombardeios com mortes de civis. O documento afirma que 60 ataques aéreos liderados pelos sauditas sobre residências deixaram mais de 500 mortos, entre eles 233 crianças. 

Segundo a ONU, os comandantes da coalizão jamais explicaram a razão militar dos ataques. As conclusões são opostas à imagem reformista que o novo governo saudita quer passar ao mundo. 

A investigação não deixa de acusar as forças houthis de crimes internacionais, mas aponta clara a responsabilidade de Riad. “Existem poucas evidências de que haja qualquer tentativa por parte dos atores no conflito para minimizar as mortes de civis”, concluiu Kamel Jendoubi, chefe do grupo. 

Outra constatação se refere ao fechamento do aeroporto de Sanaa, desde agosto de 2016, impedindo a saída da população. Como o sistema de saúde se desintegrou, muita gente no país ficou sem assistência médica, incluindo o fundador local da Cruz Vermelha, que morreu por falta de atendimento. 

“A coalizão não explicou a necessidade de fechar completamente o aeroporto”, alertou a ONU. “Existem indícios de que essas restrições são impostas em violação ao direito humanitário internacional.”. 

Na coalizão, os soldados dos Emirados Árabes são os principais responsáveis por violência sexual, incluindo estupros de prisioneiros de guerra. Numa das cadeias mantidas pela coalizão, os interrogatórios foram seguidos por torturas com caráter sexual, segundo o relatório. 

As investigações também apontam que, apenas em 2017, 842 garotos a partir de 8 anos de idade foram recrutados para lutar. Dois terços deles estariam com os houthis, que passaram a buscar essas crianças nas portas de escolas e de hospitais. A ONU alerta, porém, que existe um crescente número de menores lutando ao lado das forças da coalizão saudita. 

Uma lista dos responsáveis foi elaborada e, de forma sigilosa, foi entregue à cúpula da ONU para que possa ser usada em um processo nos tribunais internacionais. 

 

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