ONU alerta para drama de somalis que não conseguem fugir de seca

Porta-voz de Programa de Alimentos disse que milhares chegam a campos de refugiados todo dia

BBC Brasil, BBC

08 de julho de 2011 | 08h09

Pessoas na capital somali aguardam na rua transferência para campo de refugiados

 

MOGADÍSCIO, SOMÁLIA - A ONU alertou para a grave situação de milhares de pessoas passando fome na Somália e disse que as que conseguiram fugir para a Etiópia tiveram "sorte". Uma porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP, na sigla em inglês), Judith Schuler, disse à BBC que milhares de pessoas estão fugindo da seca na Somália e alcançando campos de refugiados na Etiópia.

Ela disse estar preocupada com aqueles que, por pobreza ou sem condições de fazer a longa jornada pelo deserto, estão ficando para trás. A região conhecida como Chifre da África - situada no nordeste do continente e abrangendo a Somália, Etiópia, Eritreia, Quênia, Uganda, Djibuti e Sudão - vive a pior seca dos últimos 60 anos.

Segundo o WFP, mais de 110 mil pessoas chegaram aos campos já lotados, situados na localidade remota de Dolo Ado, no sudeste da Etiópia. Outros 1,6 mil estão cruzando a fronteira da Etiópia diariamente.

'Impressionada'

 

Schuler disse ter ficado impressionada ao conversar com uma refugiada. "Ela me disse: 'Chegamos aqui e temos sorte. Muitos não tiveram condições financeiras de fazer a viagem e simplesmente ficaram para trás'". Refletindo sobre a situação dos que ficaram, Schuler comentou: "Muitos deles vão provavelmente lutar pela sobrevivência da forma como puderem, com os poucos recursos que lhes restam".

A porta-voz disse que os que conseguem alcançar o campo, por outro lado, chegam em condições terríveis. "Todos estão exaustos", disse Schuler. "Muitos caminharam durante oito ou dez dias. Alguns viajaram quatro dias de caminhão e depois andaram por três dias".

Segundo a porta-voz, os refugiados relatam que o que dificulta a viagem é a falta de comida. "(Os viajantes) não tinham o que comer, tiveram de pedir esmolas para conseguir comida. E você vê que estão em estado grave de desnutrição, especialmente as crianças. Sabemos que essas pessoas precisam desesperadamente de comida, por isso estamos fazendo o possível para ajudar".

Suprimentos

A operação de transporte de alimentos para os campos em Dolo Ado envolve uma longa e perigosa jornada. Cerca de 50 caminhões fazem a viagem, que dura dez dias, a cada mês. Os alimentos são trazidos de Djibuti até os campos, próximos da fronteira com o Quênia.

Em maio, dois veículos foram atacados por rebeldes. Uma pessoa foi morta e outra ficou ferida. Outras duas foram sequestradas, mas acabam de ser libertadas. Mas segundo o WFP, apesar dos perigos, os motoristas dos caminhões estão determinados a continuar fazendo as viagens.

Crise

Segundo a ONU, mais de dez milhões de pessoas estão sendo afetadas pela seca no Chifre da África. No caso da Somália, conflitos políticos já vinham provocando a fuga de cidadãos rumo ao Quênia. Mas a forte temporada de secas e a alta no preço dos alimentos dificultaram ainda mais a situação de milhões de somalis.

 

O país é palco de um confronto entre o grupo islâmico Al-Shabab e um governo de transição, que tem o apoio das tropas de paz da União Africana.

 

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