ONU alerta para situação humanitária no Iraque

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha anunciou ter restaurado uma das maiores estações de tratamento de água de Basra, responsável pelo suprimento de 40% da população. O restante dos 1,7 milhão de moradores continua sem água potável. A cidade do sul do Iraque está sob ataque das forças aliadas, que enfrentam resistência iraquiana.Funcionários da ONU disseram que não têm "sólida informação" sobre a causa da interrupção do funcionamento das estações de água. A porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS), Fadela Chaib, ilustrou a gravidade do problema lembrando que, em outras situações de crise no Iraque, a diarréia - diretamente ligada à falta de água potável - foi responsável pela morte de 25% a 40% das crianças.A situação de Basra já foi comentada, também, pelo secretário-geral da ONU, Kofi Annan.As agências da ONU estão prontas para retomar as ações humanitárias no país, "assim que as condições de segurança permitirem", garantiu David Windhurst, do Escritório de Coordenação Humanitária do Iraque. As operações foram interrompidas e todos os funcionários estrangeiros deixaram o Iraque às vésperas do início dos ataques anglo-americanos.Mesmo assim, 19 caminhões levando 380 toneladas de alimentos chegaram hoje à cidade de Arbil, no norte do Iraque. O comboio tinha saído da Turquia no dia 18, véspera do início dos ataques.Ainda não há refugiados iraquianos nos acampamentos montados nas fronteiras do país. "Achamos que as pessoas estão com muito medo de saírem e serem atingidas pelas bombas", disse o porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Peter Kessler. "Provavelmente, enquanto tiverem comida, elas permanecerão em suas casas."PrisioneirosA maneira como os prisioneiros de guerra americanos foram exibidos pela TV estatal iraquiana é uma "clara violação da Convenção de Genebra". A opinião é do porta-voz do Escritório de Coordenação Humanitária da ONU no Iraque, David Windhurst. Segundo ele, o mesmo não se pode dizer dos prisioneiros de guerra iraquianos em mãos das tropas americanas e britânicas, mostrados pelas emissoras de TV.A Convenção de Genebra Relativa ao Tratamento de Prisioneiros de Guerra, de 1949, da qual o Iraque é signatário, proíbe "ofensas contra a dignidade pessoal, em particular tratamento humilhante e degradante", e diz que os prisioneiros devem ser "protegidos contra atos de violência e intimidação e contra insultos e curiosidade pública".Windhurst acha que foi isso que a TV iraquiana fez ao entrevistar cinco militares americanos, dois deles feridos, num cômodo onde estavam estendidos os cadáveres de cinco colegas, fazendo closes de seus rostos e de todo o seu corpo. O porta-voz da ONU ressaltou também que, segundo a Convenção, os prisioneiros de guerra são obrigados "apenas a dar seu nome e sobrenome, patente, data de nascimento, Arma e regimento a que pertence e número de identidade pessoal ou de série".O repórter da TV iraquiana fez, diante da câmera, perguntas como o que os soldados estavam fazendo no Iraque, se tinham vindo para matar iraquianos, etc. Em contraste, as TVs ocidentais filmaram iraquianos se entregando a militares americanos e britânicos e campos de prisioneiros de guerra, sem entrevistá-los ou revelar seus nomes. "Os iraquianos não foram entrevistados diante das câmeras nem submetidos a humilhações e abusos", ponderou Windhurst, durante entrevista coletiva hoje em Amã. "A Convenção não proíbe filmar prisioneiros de guerra." "Não existem dois pesos e duas medidas, no que tange à ONU", reforçou o porta-voz da ONU em Amã, Nejib Friji, diante da insistência dos jornalistas em comparar as imagens da TV iraquiana, retransmitidas por várias emissoras ao redor do mundo, e as dos prisioneiros iraquianos ou dos afegãos na ilha de Guantánamo.O vice-primeiro-ministro iraquiano, Tareq Aziz, disse hoje que o presidente Saddam Hussein deu ordens às tropas de tratar os prisioneiros de guerra de acordo com a Convenção de Genebra. "As TVs americanas mostraram prisioneiros iraquianos andando no deserto, como se fossem ovelhas, ou ajoelhados, com as mãos amarradas, enquanto a TV iraquiana mostrou americanos sentados em sofás", comparou Aziz, em entrevista coletiva em Bagdá. "Eles certamente estavam cansados e com alguns ferimentos, mas é assim que soldados ficam no campo de batalha. Sabemos exatamente o que é a Convenção de Genebra." O ministro da Informação iraquiano, Mohamed Said al-Sahhaf, garantiu que o Iraque não violou a Convenção de Genebra e está tratando os prisioneiros de guerra de forma humana. Com seu costumeiro sarcasmo, Al-Sahhaf pediu que os americanos "parem de chorar lágrimas de crocodilo" pelos prisioneiros de guerra. E perguntou, em sua entrevista coletiva diária em Bagdá, se os ataques aliados a alvos civis, assim como a exibição de prisioneiros de guerra iraquianos na TV, também não configuravam violação das convenções internacionais.Veja o especial :

Agencia Estado,

24 de março de 2003 | 15h22

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.