AFP PHOTO / DELIL SOULEIMAN
AFP PHOTO / DELIL SOULEIMAN

ONU alerta que batalha de Mossul pode resultar em 1 milhão de deslocados 

Entidade diz que confronto no Iraque pode gerar 'maior catástrofe humanitária em anos' e teme o uso de armas químicas contra a população

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

18 de outubro de 2016 | 08h46

GENEBRA - A ONU alerta que mais de um milhão de pessoas podem ser deslocadas por conta da batalha em Mossul, no Iraque, e teme que armas químicas possam ser usadas contra civis. Desde segunda-feira, forças da coalizão internacional iniciaram uma operação para recuperar a cidade do controle do Estado Islâmico. Mas, entre as agências da ONU, o temor é de que o conflito que pode ser decisivo na guerra acabe gerando uma das "piores catástrofes humanitárias" em anos. 

"Nossa perspectiva é de que um milhão de pessoas serão obrigadas a deixar suas casas, com 200 mil apenas nas primeiras semanas", disse Jens Laerke, porta-voz da Coordenação da ONU para Assuntos Humanitários. Segundo ele, um resgate dessa população custará pelo menos US$ 360 milhões, dinheiro que a entidade não dispõe hoje.

Thomas Weiss, chefe da missão da Organização Internacional de Migrações (OIM) no Iraque, prevê que a batalha seja a maior crise dos próximos dois anos para a comunidade internacional. "O risco é de que a população seja usada como escudo humano, que grupos radicais usem armas químicas, o que deixa famílias inteiras em situação vulnerável", disse. Sua entidade já começou a comprar máscaras para a população. "Existem algumas evidências de que o EI tenha usado isso (armas químicas) na semana passada contra combatentes", disse. 

Para o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, o uso de armas químicas é uma séria violação de direito humanitário. A entidade mandou técnicos para ajudar o governo iraquiano a preparar uma resposta em seus hospitais contra contaminação. 

Segundo Weiss, a OIM estabeleceu uma estrutura para atender a 150 mil pessoas em acampamentos que estão sendo erguidos em um corredor de saída de Mossul. "Estamos muito distantes do que será necessário, incluindo financeiramente", disse Weiss, por telefone. Apenas na noite de segunda-feira, três mil iraquianos tentaram cruzar a fronteira com a Síria.

William Spindler, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, também acredita que Mossul pode se transformar na "maior catástrofe humanitárias em anos". A entidade indica que, nos próximos meses, vai erguer onze campos de refugiados para receber 120 mil pessoas. Se tivesse os recursos necessários, no entanto, poderiam atingir 570 mil pessoas. "Recebemos apenas 39% dos recursos que precisamos", disse.  Spindler também admite que não existem terrenos suficientes fornecidos pelo governo iraquiano para que acampamentos sejam erguidos.

Robert Mardini, diretor regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cobrou governos ocidentais e árabes que estejam envolvidos no conflito para que "provem que são humanos, seja qual for o lado que estejam". "O mundo está de olho no que ocorre em Mossul. Nosso apelo aos combatentes é de que preservem sua humanidade e mostrem que ela importa", disse Mardini. 

Para a entidade, o uso de civis como alvos pode ser um crime de guerra e apela para que seja oferecida uma passagem segura para aqueles que querem deixar o local. "Enquanto os tanques se dirigem para Mossul, mulheres e crianças precisam ser autorizadas a deixar o local", pediu.

Segundo Mardini, o que ocorrer nas próximas semanas no conflito vai determinar o futuro do Iraque. O temor é de que o massacre de civis por um grupo religioso específico possa criar um cisma no país. "Uma vez que as armas silenciarem, uma cidade e um país terão de ser reconstruídos e isso vai depender do que ocorrer agora", disse. 

Nas proximidades de Mossul, agências tem montado uma verdadeira operação humanitária num dos conflitos mais aguardados e preparados em anos. "Temos posicionado alimentos para um milhão de pessoas por um mês", disse Bettina Luescher, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU. Na Unicef, equipes foram deslocadas para a região para lidar com trauma de crianças e iniciar campanhas de vacinação. Num primeiro momento, 150 menores poderiam ser afetados

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.