AFP | 11.09.2015
AFP | 11.09.2015

Em cenas de caos, migrantes em campo de acolhida são obrigados a lutar por comida

ONU alerta que "milhões" de sírios podem se somar ao fluxo de refugiados

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

11 Setembro 2015 | 07h08

GENEBRA – O campo de refugiados de Roszke, na Hungria, vive cenas de caos, com um número cada vez maior de pessoas chegando da Sérvia. Hoje, milhares de pessoas disputavam sacos de comidas que eram atirados pelos policiais e entidades caritativas. Para a entidade Human Rights Watch, o tratamento dado a essas pessoas é "desumano". 

O Estado esteve no campo de Roszke nesta semana e se deparou com o desespero de milhares de pessoas, mantidas em campos de detenção por policiais armados. Para a ONU, um plano para construir residências e abrigos começa a ser implementado. “Mas as condições ainda estão distantes dos padrões internacionais”, disse William Spindler, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados. 

Nesta sexta-feira, um vídeo produzido por uma ativista austríaca, Michaela Spritzendorfer, revela como os refugiados estão sendo tratados pela polícia húngara como "animais", com comida atirada. 

Segundo ele, cerca de 300 abrigos serão construídos na região nos próximos dias, fornecidos pela empresa Ikea. Mas o governo da Hungria vinha rejeitando a oferta, sob a justificativa de não querer ver o surgimento de uma estrutura permanente. 

Nesta sexta-feira, 11, um vídeo produzido por uma ativista austríaca, Michaela Spritzendorfer, revela como os refugiados estão sendo tratados pela polícia húngara como "animais", com comida atirada. 

Zoltán Kovács, porta-voz do governo húngaro, insistiu que o local abriga os refugiados por "apenas algumas horas e em condições ótimas". Quando o Estado visitou o centro na quarta-feira, refugiados revelaram à reportagem que eram mantidos sob vigilância da polícia por três dias. 

"Os policiais estão cumprindo sua tarefa e não há a cooperação por parte deles (refugiados)", disse Kovacs, apontando que as pessoas "não conseguem fazer fila por comida". Cerca de 3,6 mil pessoas passaram pela fronteira apenas na quinta-feira.

O Estado esteve presente em uma conversa mantida entre um grupo de refugiados e os policiais locais, que insistiam que a Hungria adotava "um padrão europeu" e que era "o mais alto do mundo, em termos de direitos humanos".

O governo húngaro não esconde que quer militarizar a fronteira, com o envio de 4 mil homens e a criação de "zonas especiais" para os refugiados. A meta seria impedir que eles cheguem às cidades. 

Na avaliação da ONU, a crise pode se aprofundar rapidamente e nem muros vão deter as pessoas. “Milhões e milhões de pessoas” poderão ainda se somar ao fluxo de refugiados caminhando em direção à Europa. O alerta é de Peter Salama, diretor regional da Unicef para Coordenação Humanitária no Oriente Médio, e que indica que a falha dos serviços da ONU na região e a continuidade da guerra devem expulsar populações inteiras da Síria nos próximos meses. 

“Há milhões de pessoas na Síria fora de suas casas e, à medida que vida fica intolerável, elas poderão seguir caminho para a região e, eventualmente, para a Europa. Poderemos ter milhões e milhões de novos refugiados indo para a Europa”, disse. 

Nos últimos dois dias, a tensão nas as fronteiras europeias ganhou uma nova dimensão, com crise na Dinamarca, Grécia, Macedônia e Sérvia. Desde janeiro, mais de 360 mil pessoas entraram na Europa. Mas apenas nas últimas 36 horas, mais de 5 mil pessoas chegaram na fronteira entre a Sérvia e a Hungria, um novo recorde. A ONU estima que até segunda-feira, um total de 40 mil pessoas terão desembarcado na Hungria.

Enquanto isso, a Áustria estima que 5,7 mil pessoas tenham cruzado sua fronteira em apenas doze horas. Viena anunciou ontem que, diante do fluxo, suspendeu o trem que liga a capital à Budapeste e que estava sendo usado de forma intensa pelos refugiados desde a semana passada. 

“Se a Europa está assustada com o fluxo de 360 mil pessoas em 2015, países como Líbano, Jordânia e Turquia já receberam dez vezes mais refugiados”, indicou Salama. “Na jornada tomada pelos imigrantes, crianças precisam ser protegidas de abusos”, apelou o executivo.

Para a ONU, uma resposta caritativa não é a solução. “Uma resposta humanitária não basta. Precisamos de paz na Síria para frear a crise de refugiados. Estamos lidando apenas com as repercussões de um conflito”, disse Spindler. Para o mediador da crise na Síria, Staffan de Mistura, apenas uma solução política pode acabar com a guerra e, portanto, com o fluxo de refugiados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.