Manuel Elias / AFP
Manuel Elias / AFP

Obama desafia Trump e ONU condena colônias judaicas

EUA se abstêm em votação, apesar de pressão do presidente eleito e de Israel, abrindo caminho para resolução pedindo fim de assentamentos; republicano diz que ‘as coisas serão diferentes’ após sua posse

O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2016 | 17h49
Atualizado 23 Dezembro 2016 | 20h37

NOVA YORK - Os Estados Unidos permitiram nesta sexta-feira que o Conselho de Segurança da ONU aprovasse uma resolução que pede o fim de assentamentos israelenses. A decisão foi um desafio do governo de Barack Obama à pressão do presidente eleito, Donald Trump, assim como de Israel e vários senadores americanos que pediram a Washington para usar seu poder de veto.

Logo após a votação, Trump declarou, no Twitter, que “as coisas serão diferentes na ONU após 20 de janeiro”, quando ele tomará posse.

O CS somente conseguiu aprovar o projeto porque os EUA se abstiveram na votação, uma mudança significativa na prática americana de proteção a Israel. Os EUA geralmente usam seu poder de veto contra projetos de resolução que possam ser prejudiciais ao israelenses, considerados aliados estratégicos no Oriente Médio.

Para ser aprovada, a resolução necessitava de nove votos a favor e nenhum veto dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança – EUA, França, Rússia, Grã-Bretanha e China. Sob aplausos, ela foi aprovada por 14 dos 15 membros do Conselho de Segurança. O representante israelense, Danny Danon, protestou com uma provocação: “Vocês proibiriam os franceses de construir em Paris?” 

Embora não tenha reflexo sobre o terreno, a decisão representa um forte revés diplomático para Israel, que aumenta seu isolamento internacional.

O gabinete do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, disse em comunicado que não acatará a resolução da ONU sobre as colônias. “Israel rejeita a vergonhosa resolução anti-Israel na ONU e não se submeterá a seus termos”, disse a nota, que acusa a ONU de não agir na Síria. 

O ministro de Energia de Israel, Yuval Steinitz, declarou: “Esta foi uma resolução contra o Estado e o povo judeus. Esta noite, os EUA simplesmente abandonaram seu único amigo no Oriente Médio”. Israel recebe anualmente mais de US$ 3 bilhões em ajuda militar dos EUA. 

O presidente palestino, Mahmud Abbas, qualificou de uma “forte bofetada” à política israelense a aprovação da resolução. “É uma condenação internacional absoluta, unânime, aos assentamentos e um voto de apoio à solução de dois Estados”, declarou. 

O porta-voz do governo palestino, Nabil Abu Rudeina, disse que se tratou de uma condenação internacional  unânime da colonização e um claro apoio à solução de dois Estados.

Os palestinos defendem a criação de um Estado independente na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, áreas que Israel capturou na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Israel saiu de Gaza em 2005, mas, apesar das críticas internacionais, continua ampliando os assentamentos judaicos nos territórios palestinos ocupados.

Os EUA defenderam sua abstenção na ONU. “Os EUA têm passado a mensagem de que os assentamentos deveriam acabar, em público e em privado, durante quase cinco décadas”, disse a embaixadora americana na ONU, Samantha Power, após a votação.

“Alguém não pode simultaneamente defender a expansão dos assentamentos israelenses e a solução de dois Estados que poderia acabar com o conflito”, completou. Ela acrescentou que as colônias são responsáveis por minar a segurança de Israel. 

O Egito, membro provisório do Conselho de Segurança, se retirou do projeto, no qual havia trabalhado com os palestinos, permitindo que Nova Zelândia, Malásia, Venezuela e Senegal pedissem a votação, após ser pressionado por Israel e por Trump. O presidente eleito fez com isso sua intervenção mais direta na política externa dos EUA no período de transição.

O republicano telefonou na quinta-feira ao presidente do Egito, Abdel-Fattah Al-Sissi, para discutir sobre a votação da proposta no conselho. Durante a conversa, o líder egípcio estabeleceu um acordo com Trump para dar uma oportunidade ao novo governo americano para buscar “uma solução completa e definitiva” ao conflito palestino-israelense, informou a agência oficial de notícias Mena. Trump falou com o líder egípcio após um telefonema de Netanyahu, que lhe pediu para pressionar a administração de Obama a vetar a resolução. 

O atual governo, que termina em 20 de janeiro com a posse de Trump, tem sido duro crítico dos assentamentos de Israel, descrevendo-os como um impedimento à solução de dois Estados para o conflito palestino-israelense. Trump, por sua vez, já deixou claro que seu governo terá uma posição mais simpática com relação a Israel. / NYT, EFE, AP e AFP

 

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