ONU aprova resolução para conter adesão estrangeira a radicais islâmicos

Em votação unânime, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) aprovou resolução para conter o fluxo de combatentes estrangeiros para as fileiras do Estado Islâmico (EI) e outros grupos extremistas, cuja emergência dominou a Assembleia-Geral da entidade, realizada ontem em Nova York.

CLÁUDIA TREVISAN, ENVIADA ESPECIAL / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2014 | 02h01

O serviço de inteligência dos Estados Unidos estima que mais de 15 mil militantes de 80 países se juntaram ao grupo terrorista na Síria desde o início da guerra civil no país, em 2011.

A Resolução sobre Combatentes Terroristas Estrangeiros obriga os 193 Estados-membros da ONU a adotar leis que responsabilizem criminalmente cidadãos que viajem ou tentem viajar a outros países com o objetivo de participar de atos terroristas. A resolução também pune o recrutamento, organização e financiamento de militantes que tenham a intenção de se juntar a grupos extremistas no exterior.

A proposta foi apresentada pelos EUA, com o apoio de dezenas de membros da ONU. Sua aprovação ocorreu em sessão do Conselho de Segurança presidida pelo líder americano, Barack Obama. O organismo é integrado por 15 países, entre eles os 5 membros permanentes que possuem direito de veto - EUA, China, Rússia, Grã-Bretanha e França. "O que nos reúne hoje, o que é novo, é o fluxo sem precedentes de combatentes estrangeiros para zonas de conflito em anos recentes, incluindo Afeganistão, Chifre da África, Iêmen, Líbia e, mais recentemente, Síria e Iraque", disse Obama na abertura do encontro. Além de exacerbar os conflitos nos locais para onde viajam, esses combatentes podem voltar a seus países para cometer atentados terroristas, observou.

O documento determina que as nações impeçam o trânsito em seu território de qualquer indivíduo suspeito de ter a intenção de participar de atos terroristas em outros países. Companhias aéreas podem ser solicitadas a fornecer as listas de passageiros de seus voos a autoridades locais, que terão a missão de detectar a entrada ou saída do território de indivíduos que integram a lista de suspeitos do Comitê Antiterrorista da ONU.

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou no encontro do Conselho de Segurança medidas que preveem o confisco de passaportes dos que buscam se juntar a extremistas e a proibição de retorno dos que atuaram nas fileiras desses grupos no exterior. O país é uma das principais fontes de combatentes ocidentais do EI e existe a suspeita de que um cidadão britânico tenha decapitado dois jornalistas americanos e um compatriota, em ações registradas em vídeos.

Antes da reunião do Conselho de Segurança, Obama pediu na Assembleia-Geral da ONU apoio mundial à luta contra o EI, ao mesmo tempo que defendeu o combate à ideologia e à propaganda que sustentam o extremismo. "A única linguagem entendida por assassinos como esses é a linguagem da força", declarou. Dirigindo-se a cerca de 120 chefes de Estado e de governo, Obama pediu o engajamento de todos na ofensiva para "degradar" e "destruir" o EI, grupo que controla parte do território sírio e iraquiano.

Cameron convocou uma sessão extraordinária do Parlamento para amanhã, com o objetivo de obter autorização para atacar posições do EI no Iraque. Se receber o sinal verde, a força aérea britânica poderá iniciar bombardeios no fim de semana, ao lado da França e dos EUA. A coalizão liderada pelos EUA recebeu ontem a adesão de Bélgica e Holanda.

Obama esforçou-se para dar à campanha um caráter coletivo e rejeitar a ideia de que se trata de um confronto entre os EUA e o mundo muçulmano. "Os EUA não estão e nunca estarão em guerra contra o Islã", declarou. Na avaliação de Obama, o combate à atual crise vai além de questões militares e de segurança. "Não deve mais haver tolerância aos chamados clérigos que exortam ataques a inocentes porque eles são judeus, cristãos ou muçulmanos. É o momento de um novo pacto entre povos civilizados para erradicar a mais fundamental fonte da guerra, que é a corrupção de mentes jovens por uma ideologia violenta", ressaltou.

O presidente americano reconheceu que a pobreza, a falta de perspectiva econômica, a corrupção e a ausência de liberdade política estão entre os fatores que facilitam o crescimento do extremismo islâmico. "Se jovens vivem em lugares nos quais a única opção é entre as ordens de um Estado e o apelo do extremismo clandestino, nenhuma estratégia antiterror pode ter sucesso."

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