ONU apura intimidação de repórter por capacete-azul

A Organização das Nações Unidas (ONU) abriu investigação interna para apurar mais uma denúncia de que um membro de suas forças de paz teria violado as regras de engajamento ao ameaçar de morte um grupo de civis haitianos e um cinegrafista americano durante um protesto em Porto Príncipe, no dia 15.

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

A acusação é feita por Ansel Herz, um jornalista free lance, de 22 anos, que está há um ano no Haiti. Herz cobriu o terremoto de janeiro, que deixou 300 mil mortos, e, na época, abasteceu as principais agências internacionais de notícias com suas imagens. "Minha intenção é estar onde o silêncio (da imprensa) está", diz ele.

Mas este mês, ao filmar um protesto na capital haitiana, ele disse ter sido surpreendido por "um militar jordaniano da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), que começou a disparar para o alto. As pessoas correram em pânico e começaram a gritar: "filma, filma"", disse ele ao Estado. A ação foi captada pelo fotógrafo haitiano Etant Dupain. "O militar que está na foto apontou a arma para mim, com o dedo no gatilho, e, em seguida, moveu o braço estendido com a arma em punho na direção de todos os civis que estavam ao redor."

Herz disse que temeu "pela vida das pessoas que estavam ali", mas se concentrou "em continuar gravando tudo o que estava acontecendo". O jornalista americano disse ter presenciado pelo menos outras duas situações nas quais militares da ONU dispararam com armas de fogo ou jogaram veículos contra civis e jornalistas em Porto Príncipe.

"Tudo isso me faz pensar em como os civis haitianos são tratados no cotidiano, em lugares onde não há câmeras ligadas", disse Herz.

Reação. Por escrito, o porta-voz da Minustah no Haiti, Vicenzo Pugliese, disse que "o assunto está sendo investigado pela missão e Ansel Herz já foi convidado a depor e a entregar uma cópia da fita de vídeo com a gravação do incidente. Mas, até o fim da investigação, não haverá nenhuma declaração pública".

Herz disse duvidar do interesse da Minustah em punir o militar envolvido. "Não acho que isso termine em alguma ação. Eles sempre dizem isso, mas nunca acontece nada."

PARA LEMBRAR

Tropa brasileira também foi alvo de acusações

Em maio, o Estado entrevistou e fotografou dezenas de estudantes da Faculdade de Etnologia da Universidade do Estado do Haiti, em Porto Príncipe, que mostraram cartuchos de munição real deflagrada e 32 invólucros de granadas de gás lançadas pelas tropas brasileiras contra uma manifestação estudantil, numa ação dentro dos muros da faculdade. Uma menina ferida, de 9 anos, que vivia num acampamento próximo, era apresentada pelos haitianos como vítima de um estilhaço da munição usada pelos brasileiros. Apesar de ter considerado o episódio "grave", a ONU concluiu que "não houve uso excessivo da força".

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