Jean Bizzimana / Reuters
Jean Bizzimana / Reuters

ONU corta comida para refugiados em países da África por falta de verba

Crise e falta de verba fazem agências da ONU pelo mundo diminuírem serviços e demitirem funcionários; secretário-geral diz que o dinheiro acabou em junho

Jamil Chade, Correspondente, O Estado de S.Paulo

13 Agosto 2018 | 05h00

GENEBRA - A falta de verbas internacionais para lidar com crises humanitárias levou a ONU a cortar o volume de alimentos que destina a cada um dos refugiados que atende na Etiópia e em outros países da África. O objetivo do racionamento é garantir que a mesma quantidade de pessoas continue recebendo alimentos, apesar das dificuldades financeiras.

Para o período 2018-2019, o orçamento da ONU está estimado em US$ 5,4 bilhões. Segundo o secretário-geral da entidade, António Guterres, o dinheiro acabou no fim de junho, o que nunca havia ocorrido. Naquele mês, as contas já apresentavam déficit de US$ 139 milhões. 

Na Etiópia, vivem cerca de 1 milhão de refugiados, principalmente do Sudão do Sul. “A falta de dinheiro está comprometendo de forma severa a qualidade da proteção prestada aos refugiados”, disse Messeret Debebe, representante da Administração Etíope para Refugiados. 

Segundo cálculo da ONU, num acampamento de refugiados, a ajuda alimentar precisa conter 2,1 mil calorias para cada pessoa. Para um adulto, tal quantidade serve apenas para evitar que perca peso. Portanto, um corte de 10% ou 20% nas cotas de alimentos pode ter um impacto real. 

Em Ruanda, a entidade cortou em 25% o volume de alimento em cada porção destinada aos refugiados do Congo. Em fevereiro, diante da medida, protestos ocorreram e a polícia interveio e 11 refugiados morreram. 

Já em dezembro, a ajuda alimentar na Somália foi suspensa para 500 mil pessoas. Mesmo na Síria, o número de beneficiados pelo Programa da ONU para Alimentação caiu de 4 milhões em 2017 para 2,8 milhões em 2018. 

No Sudão do Sul, as refeições também foram cortadas em meados do ano. A conta da ONU é que faltam quase US$ 800 milhões para conseguir atender aos 2,8 milhões de refugiados e deslocados internos que fugiram de suas casas desde 2013. No início do ano, previa-se que a região precisaria de US$ 834 milhões. Mas recebeu US$ 64 milhões. 

Contribuições. Algumas das piores crises estão sem respostas diante da falta de contribuições internacionais. Dados da agência da ONU para agricultura e alimentação (FAO) revelam que, em pelo menos sete países onde a fome é grave, os programas contam com menos de 10% do orçamento necessário para que a entidade possa distribuir alimentos. 

No início de 2018, a FAO havia previsto gastar US$ 1 bilhão para atender às necessidades emergenciais de 33 milhões de famintos pelo mundo. Sete meses depois, recebeu menos de 30% do valor e seus programas estão ameaçados. 

Na Líbia, a FAO solicitou US$ 4,1 milhões. Mas não recebeu nem um centavo. Na Coreia do Norte, dos US$ 9 milhões orçados, entraram apenas 5,5%. Sobre a guerra na Síria, a FAO solicitou US$ 120 milhões para garantir alimentos à população. Após sete meses, recebeu 6,2% do valor necessário. 

Países que dez anos atrás estavam na lista de prioridades de governos pela visibilidade que a crise dava deixaram de interessar. Um dos casos é o do Haiti. Entre os funcionários internacionais, o Haiti é o exemplo de um país que sofre de “fatiga de doadores”, cansados de enviar dinheiro sem um retorno claro e uma solução em vista. 

Demissões. Criada há 70 anos, a agência da ONU para refugiados, a UNRWA, foi obrigada a demitir funcionários e reduzir o tempo de trabalho de centenas de outros diante da falta de recursos. Em janeiro, a Casa Branca anunciou que reduzirá sua contribuição anual de US$ 360 milhões para US$ 60 milhões. O problema é que US$ 1 a cada US$ 3 usados pela entidade para pagar seus programas – incluindo a escolarização de 500 mil crianças – vinha dos recursos americanos. 

Sem opção, a agência anunciou a demissão de 267 pessoas em Gaza e na Cisjordânia a partir deste mês. Outros 500 funcionários passarão a ganhar por horas, com o período de trabalho reduzido. A agência foi criada em 1948 para ajudar os palestinos que tiveram de deixar suas casas com a criação do Estado de Israel. Hoje, presta serviços a 3 milhões de pessoas. 

A UNRWA, que por certo tempo recebeu apoio do Brasil, decidiu se lançar em uma operação diplomática para conseguir recursos e compensar os cortes americanos. “Estamos determinados a manter os serviços para os milhões de palestinos que dependem de nós na Jordânia, no Líbano, em territórios palestinos e na Síria”, disse Chris Gunners, representante do programa. Uma das saídas tem sido encontrada com o Banco Mundial, que autorizou o envio de US$ 90 milhões para financiar as atividades da entidade, até o final do ano.

PARA ENTENDER

Dinheiro nunca acabou tão cedo

De uma forma sem precedentes, a ONU vive uma penúria de recursos que começa a afetar sua capacidade de responder a algumas das maiores crises internacionais, deixando refugiados ou famintos sem atendimento em diferentes partes do mundo. 

A crise financeira na ONU não é nova, mas desta vez a situação é mais grave. Numa carta enviada a todos os governos do mundo, o secretário-geral da entidade, Antonio Guterres, deixou claro que nunca sua organização entrou no vermelho no orçamento tão cedo no ano fiscal.

A ONU conta com dois orçamentos. Um deles – o regular – cobre gastos administrativos e fundos para programas específicos. O segundo cobre as operações de paz, estimadas em US$ 6,7 bilhões para dois anos. A ajuda do Banco Central para financiar as atividades da ONU é vista por Nickolay Mladenov, coordenador especial para o Processo de Paz do Oriente Médio, como essencial.

 

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