AFP PHOTO / Fabrice COFFRINI
AFP PHOTO / Fabrice COFFRINI

ONU cria comissão de inquérito para investigar crimes de guerra em Gaza

Brasil vota a favor da iniciativa no Conselho de Direitos Humanos da entidade, que teve oposição apenas de EUA e Austrália; embaixadora de Israel diz que país tentou evitar danos e acusa órgão de ter 'obsessão anti-Israel'

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 12h57

GENEBRA - O Conselho de Direitos Humanos da ONU criou nesta sexta-feira, 18, uma comissão de inquérito para investigar o abuso de força e eventuais crimes de guerra por parte do governo de Israel, depois que confrontos na Faixa de Gaza resultaram em mais de cem mortos entre os palestinos desde março. 

O projeto prevê um processo "internacional, independente e imparcial". A decisão, que também condena Israel pelas violações, foi aprovada por 29 votos a favor, 2 contra e 14 abstenções. O Brasil votou a favor da criação comissão que teve a oposição apenas dos Estados Unidos e da Austrália. 

Antes da votação, o chefe de Direitos Humanos da ONU, Zeid Raad Al Hussein, afirmou de que a população de Gaza está "enjaulada em uma favela tóxica" e pediu que a ocupação de Israel fosse encerrada. 

Apenas na segunda-feira, cerca de 60 palestinos foram mortos pelo Exército israelenses. Os protestos foram organizados pelo Hamas, que controla Gaza. O governo de Israel alega que terroristas usam os protestos para encobrir tentativas de cruzar a fronteira. 

Zeid insistiu que "o contraste profundo no número de vítimas em ambos os lados sugere que há uma resposta desproporcional" por parte de Israel. De acordo com ele, um soldado israelense foi ferido por uma pedra na segunda-feira, enquanto 43 palestinos foram mortos no local de protestos, além de outros 17 fora da zona. 

O representante da ONU também indicou que há "pouca evidência de tentativas de Israel de minimizar o número de mortos". Para ele, portanto, as mortes foram ilegais, já que poderiam ser consideradas como propositais. 

Por este motivo, ele foi um dos que apoiou a criação da comissão de inquérito e pediu que os responsáveis sejam punidos. "A ocupação precisa acabar. Isso faria com que a insegurança e violência desaparecessem", disse.

Aviva Raz Shechter, embaixadora de Israel na ONU, rejeitou a culpa pela crise. Segundo ela, foi Israel, e não o Hamas, que tentou evitar danos aos civis. Para ela, o Conselho de Direitos Humanos da ONU tem uma "obsessão anti-Israel" e insistiu que seu país tem o direito de proteger sua fronteira. 

"O Conselho serviu para espalhar mentiras", acusou a diplomata, alegando que o voto veio de "algumas das maiores ditaduras do mundo". "Atuem com moral. Vocês estão apoiando o Hamas", afirmou.

"Não precisamos de um órgão internacional para investigar o que nós mesmo já estamos investigando, em uma democracia. O opressor é o Hamas. Atingimos um novo patamar de hipocrisia e esse órgão não merece nada menos que ser rompido", completou. 

O representante americano no Conselho, Theodore Allegra, alertou que a resolução "apenas mostrou que o Conselho de Direitos Humanos é de fato um órgão falido". Para ele, é "inaceitável" que a investigação não avalie as ações do Hamas. "Não podemos apoiar essa resolução", disse. 

Para as autoridades palestinas, as mortes são deliberadas. "São crimes de guerra", afirmou a delegação. "Vamos deixar que haja uma investigação e estamos dispostos a ser alvo de um inquérito. Mas não temos confiança no processo de investigação de Israel", completou. 

O governo brasileiro votou a favor da criação da comissão de inquérito. Mas deixou claro que texto tinha problemas. "Mesmo que tenhamos dificuldades com a proposta, decidimos votar a favor", disse a embaixadora brasileira Maria Nazareth Farani Azevedo. Ela ainda insistiu na necessidade de que o diálogo seja restabelecido na região para negociar.

Para ela, todos os Estados tem o direito de se defender, mas de forma proporcional. Na avaliação do País, o direito à liberdade de expressão e de associação precisam ser protegidos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.