ONU critica ação russa; Brasil se abstém

Em votação simbólica, Assembleia-Geral condena anexação da Crimeia por Moscou

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

27 de março de 2014 | 15h08

(Atualizada às 23h30) PARIS - Com o voto favorável de cem países e a abstenção do Brasil, a ONU condenou na quinta-feira, 27, a anexação da península ucraniana da Crimeia pela Rússia. O texto, submetido pela Ucrânia à Assembleia-Geral, não tem caráter legal, mas reiterou o isolamento internacional do presidente da Rússia, Vladimir Putin. A resolução recebeu apenas dez votos contrários, além do russo.

A votação ocorreu na sede da ONU, em Nova York. A resolução pediu que a comunidade internacional não reconheça a anexação da península pela Rússia e afirmou que "o referendo de 16 de março não tem nenhuma validade e não pode justificar nenhuma mudança de status" político na Crimeia.

Veja também:
link Cronologia: os protestos na Ucrânia
link Galeria de fotos: crise na Ucrânia
link Infográfico: raízes do conflito

O documento reiterou ainda o engajamento da Assembleia-Geral "com a soberania, a independência política, a unidade e a integridade territorial da Ucrânia" e rejeita a "ameaça, o uso da força ou outros meios ilegais" para alterar suas fronteiras.

Dos 193 países da organização, 169 votaram. Mais de 20 países não participaram, ou porque não apareceram ou porque não pagaram suas contribuições à ONU, disseram diplomatas à agência Reuters.

Liderados por EUA, Europa e nações árabes e asiáticas, cem países aprovaram o texto. Os dez que votaram contra, além da Rússia, foram Armênia, Bielo-Rússia, Bolívia, Coreia do Norte, Cuba, Nicarágua, Síria, Sudão, Venezuela e Zimbábue. Já entre os 58 que se abstiveram, estavam Brasil, Índia, África do Sul - sócios da Rússia no Brics -, Paquistão, Egito e Gabão.

O embaixador do Brasil na ONU, Antonio Patriota, discursou e pediu diálogo. "O Brasil apoia todos os esforços para uma solução pacífica da crise e convida as partes para um diálogo inclusivo", disse.

O Estado entrou em contato com a representação brasileira, em Nova York para obter uma explicação sobre o voto do País, mas não houve retorno até o fechamento desta edição. Na semana passada, em Paris, o ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, já havia dito que o Brasil não condena a posição da Rússia sobre a Crimeia.

Eleições

Enquanto a Ucrânia ganhava apoio no exterior, em Kiev, a disputa pela presidência nas eleições marcadas para 25 de maio crescia. A ex-primeira-ministra e dissidente Yulia Timoshenko, de 53 anos, anunciou que será candidata ao cargo (mais informações nesta página).Yulia, no entanto, tem poucas chances de vitória. Em diferentes regiões do país, inclusive em Kiev, o Estado constatou a rejeição da população a seu nome, visto como "mais uma oligarca" em busca do poder.

Segundo uma recente pesquisa de opinião, o favorito ao posto é o empresário e ex-militar Petro Porochenko, que tem 24,9% da preferência dos eleitores, à frente do ex-campeão de boxe e líder oposicionista Vitali Klitschko, com 8,9%. Yulia aparece em terceiro, com 8,2%, à frente dos candidatos de partidos neonazistas e neofascistas, como Oleg Tiakhnibok, do partido nacionalista Svoboda (Liberdade), e Dimitro Iaroch, do movimento paramilitar ultranacionista Pravyi Sektor (Setor de Direita).

As eleições de maio são cruciais para a Ucrânia, porque representam o retorno à normalidade democrática depois dos protestos da Praça da Independência, que derrubaram o então presidente Viktor Yanukovich um ano e meio antes da conclusão de seu mandato.

Socorro. Enquanto se reorganiza, a Ucrânia recebeu nesta quinta o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois da União Europeia, a instituição informou que realizará um empréstimo de até US$ 18 bilhões para evitar a bancarrota do país.

Os números ainda estão condicionados à adoção de um programa de medidas de austeridade que envolverá o congelamento de aposentadorias e de salários do funcionalismo público e o aumento do preço do gás, reduzindo os subsídios do Estado.

Assim, o programa de resgate da comunidade internacional deve ser de pelo menos US$ 27 bilhões, considerando os valores anunciados por Bruxelas e Washington.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.