ONU dá aula sobre diversidade do País

Objetivo é evitar que se repita com refugiados palestinos o choque cultural que afegãos tiveram ao chegar ao Brasil

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2018 | 00h00

Ruwayshid, Jordânia - Para evitar os erros de experiências passadas com o Brasil, a ONU montou um esquema para garantir que os palestinos se adaptem de forma mais rápida à cultura brasileira e tenham trabalho. A preparação inclui até um alerta às famílias de que seus filhos, todos sunitas, terão aulas de educação sexual na escola, algo que causou espanto entre as mulheres no campo de refugiados. Após a guerra do Afeganistão e a queda do Taleban, o Brasil ofereceu-se para receber um pequeno grupo de afegãos como refugiados. A experiência foi malsucedida e todos os refugiados deixaram o País depois de poucos meses, alegando que o choque cultural era forte demais. Desta vez, a ONU montou um esquema que inclui palestras nas barracas montadas no deserto. Uma das refugiadas, Rashida Uma Adnana, queria saber ontem se no Brasil existe frango para ela preparar seu jantar. Já Mohamed Sadi queria saber se existem no País confrontos entre grupos religiosos. Assim como os sonhos, as preocupações também fazem parte das conversas entre os refugiados ao prepararem suas malas. Para Mostafa Akal, de 23 anos, o temor é não encontrar emprego. "Quero muito trabalhar", afirmou. Issa, que nasceu e viveu 40 anos na capital iraquiana, não esconde que está preocupado com a violência em São Paulo. A ONU deixa claro que não quer criar uma "ilha árabe" e, pela legislação do Brasil, todos terão a possibilidade de tornar-se brasileiros em um prazo de dez anos. "Já nos sentimos brasileiros", garante o ex-taxista Ahmad.CARNE DE PORCOSegundo os representantes do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), os funcionários que estão dando as palestras insistem na diversidade cultural do País e garantem, por exemplo, que ninguém será obrigado a comer carne de porco (animal considerado impuro no islamismo). Mas todos terão de respeitar os que optarem por comer.No Brasil, os palestinos ainda vão ter aulas de português e já receberam livros para familiarizar-se com a língua. "Não vou começar a vida do zero. Eu me formei engenheiro há 40 anos", afirmou Rajai Lama, que passa horas escutando em seu computador as aulas de português em um CD-ROM dado pelo governo brasileiro e pela ONU. "Quero pelo menos chegar ao Brasil já com o som da língua na minha mente", assinalou.A ONU ainda ajudará os refugiados como apoio de moradia por um ano em São Paulo e Porto Alegre. A organização não informou quanto a operação irá custar.

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