Roberto Schmidt/AFP
Roberto Schmidt/AFP

ONU declara epidemia de cólera na Somália

Deslocamento em massa da população das áreas devastadas pela fome e pela violência aumenta a disseminação da doença

, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

GENEBRA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou ontem que uma epidemia de cólera se espalha pela Somália, país devastado pela fome e pela guerra civil. Segundo a entidade, foram registrados números alarmantes de pessoas infectadas entre os milhares que se deslocaram para a capital, Mogadíscio, em busca de água e comida.

Somente em um hospital da cidade foram registrados até agora 4.272 casos de diarreia aguda, principalmente em crianças com menos de 5 anos - 181 pessoas já morreram, segundo confirmou o médico Michel Yao, da OMS. "O número de casos é duas ou mesmo três vezes maior do que no ano passado." Yao observou ainda que a movimentação da população aumenta o risco de disseminação da doença.

Houve casos de cólera confirmados principalmente em Mogadíscio, mas também foram observados surtos em áreas do sul do país. Na capital e na região da Somalilândia, no norte, também foram confirmados casos de sarampo e dengue.

A rápida propagação da cólera é atribuída ao aumento dos assentamentos de deslocados em condições de extrema precariedade, ao difícil acesso à água potável, à falta de saneamento básico, à alta taxa de desnutrição infantil e à limitada capacidade dos centros de saúde. Estima-se que 100 mil somalis tenham buscado refúgio em Mogadíscio nos últimos dois meses.

A infecção intestinal, normalmente relacionada à contaminação da água usada para beber, provoca diarreia aguda e vômitos, deixando as crianças especialmente vulneráveis. A falta de suprimentos básicos e a seca que atinge a região - a pior em 60 anos - agravam a epidemia.

Lulu Mohamed, médica responsável pelo serviço pediátrico do hospital de Mogadíscio, afirma que a atual situação do país é pior do que a fome de 1992, no início da guerra civil. "Desde então, nunca vimos tantas crianças desnutridas. A taxa de mortalidade aumenta rapidamente", afirmou. Ela cita o caso de Ibrahim, um menino de 3 anos que está hospitalizado com os sintomas da cólera e luta, ao mesmo tempo, contra a rubéola. A criança pesa 8 quilos - o equivalente a um bebê de 8 meses - e está tão fraca que só consegue se alimentar com a ajuda de uma sonda inserida no nariz.

A mãe, Rukyo Abdullahi, contou que havia dias o menino apresentava febre, vômito e diarreia e viajou por mais de 50 quilômetros em busca de atendimento médico para o filho. Fora da capital, a assistência médica e humanitária é escassa, por falta de segurança para as equipes de ajuda.

Milícia. A ONU afirma que 3,2 milhões de pessoas - quase a metade da população da Somália - precisa de ajuda humanitária imediata. Desde 1991, o país vive em guerra civil. O governo americano estima que 29 mil pessoas já morreram de fome nos últimos meses.

O número de vítimas pode aumentar drasticamente se não houver uma distribuição de alimentos e o envio de equipes médicas às áreas atingidas.

As regiões afetadas pela seca e pela fome na Somália estão sob controle de militantes do grupo islâmico Al-Shabab, que tem ligação com a rede terrorista Al-Qaeda. Há quatro anos, os insurgentes somalis tentam depor o governo, que é apoiado por países ocidentais. Há dois anos, o grupo baniu o trabalho de agências humanitárias no território controlado pela milícia.

Entretanto, o Al-Shabab retirou-se de Mogadíscio no fim de semana. O Exército somali, apoiado por tropas de paz da União Africana (UA), alertou ontem a população a não retornar às áreas da capital que antes eram ocupadas pelo grupo.

Segundo os militares, os bairros não estão completamente seguros e existe o risco de que as áreas estejam repletas de minas terrestres. Testemunhas afirmaram à rede de TV britânica BBC que alguns poucos militantes permanecem em pontos da cidade e relataram muitos tiroteios.

A milícia, que controlava a maior parte da capital, anunciou a retirada da cidade por "motivos táticos". Mogadíscio agora é controlada por um enfraquecido governo interino e pelos 9 mil soldados da União Africana. Desde o fim de semana, os militares ocupam os distritos antes tomados pelos insurgentes. / REUTERS e AP

PARA ENTENDER

Doença devastou Haiti

A OMS registrou sete epidemias de cólera desde 1817, com milhares de mortos em todo o mundo. Só na Índia, foram 15 milhões de vítimas após um dos surtos mais graves, em 1860. A doença - caracterizada por uma infecção intestinal aguda causada por uma bactéria - é frequentemente associada a baixos índices de desenvolvimento humano e condições precárias de higiene.

Os surtos mais recentes de cólera estão quase todos concentrados no continente africano. Em Moçambique, a doença é considerada endêmica e, no Zimbábue, onde um foco foi localizado em agosto de 2008, a doença já matou mais de 4 mil pessoas.

O caso mais recente de epidemia foi registrado no Haiti no ano passado, depois do terremoto que devastou o país. Mais de 3,7 mil pessoas morreram e outras 181 mil foram contaminadas. O principal foco de infecção era o Rio Artibonite, que atravessa o território haitiano. / REUTERS

 

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