ONU denuncia limpeza étnica e EUA estudam ataque a jihadistas na Síria

A ONU acusou ontem militantes do Estado Islâmico de cometer "limpeza étnica e confessional" em atos que seriam "crimes contra a humanidade". Nos EUA, que atacam os jihadistas no Iraque desde o dia 8, oficiais militares admitem a possibilidade de bombardear posições do grupo na Síria, com apoio de países da região.

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / IRBIL, IRAQUE, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h02

O presidente americano, Barack Obama, tem limitado a campanha militar no Iraque, com prioridade para a proteção de diplomatas e civis americanos ameaçados. O chefe do Estado-Maior conjunto, general Martin Dempsey, disse na semana passada que o grupo precisa ser abordado de "ambos os lados do que, agora, representa uma fronteira não existente" entre a Síria e o Iraque.

O porta-voz de Dempsey confirmou ontem que as opções contra os jihadistas estão sendo revisadas e ressaltou a necessidade de formar "uma coalizão de parceiros capazes, regionais e europeus". "Com o Comando Central, (Dempsey) está preparando opções para abordar o EI tanto no Iraque quanto na Síria, com uma variedade de ferramentas militares, incluindo ataques aéreos", disse o coronel Ed Thomas. Dois outros oficiais americanos reforçaram à agência Reuters que há estudos para ataques na Síria.

A ONU quer uma reunião hoje para tratar da violação de direitos humanos na região. A entidade aponta para mais de mil assassinatos em pouco mais de um mês e acusa os militantes de recrutar menores, sequestrar centenas de pessoas e usar mulheres e crianças como escravos, até mesmo sexuais. O grupo promove ainda conversões forçadas, tráfico de pessoas e destruição de locais sagrados.

Segundo a ONU, os extremistas teriam massacrado em um dia 670 xiitas que haviam sido presos em Mossul, no dia 10 de junho. O massacre ocorreu depois que sunitas e xiitas foram separados em dois grupos.

Terreno. O primeiro-ministro interino do Iraque, Haider al-Abadi, condenou ontem a atuação de milícias no país, e exigiu que elas se submetam à autoridade do Estado. A declaração contraria posição adotada por seu antecessor, Nuri al-Maliki, do mesmo partido xiita Pregação Islâmica, que havia convocado as milícias a defender o Iraque contra o avanço do EI.

Abadi mostrou-se ontem otimista de que conseguirá formar um governo de coalizão até o dia 10, quando vence o prazo legal de um mês desde sua indicação. "Não aceitaremos a formação de grupos armados fora do controle do Estado", disse.

Ele anunciou que foram emitidas ordens de prisão contra quatro homens acusados de envolvimento no massacre de 68 sunitas em uma mesquita na Província de Diyala, ao norte de Bagdá, na sexta-feira. O massacre - uma aparente vingança por um ataque cometido no mesmo dia contra o líder de uma milícia xiita, que deixou três de seus homens mortos - desencadeou uma onda de retaliações de ambos os lados que continuou ontem.

Novas milícias xiitas estão sendo formadas a cada dia, com fardas e armas financiadas com verbas dos governos do Irã e do próprio Iraque, segundo denúncias.

Em junho, o aiatolá Ali al-Sistani, mais importante líder religioso xiita do Iraque, convocou os fiéis a enfrentar o EI, o que levou milhares de xiitas a se apresentar como voluntários, ao mesmo tempo em que o Exército iraquiano abandonava suas posições nas províncias ao norte de Bagdá. Depois de se reunir no domingo com Abadi, o chanceler iraniano, Mohamad Javad Zarif, visitou o aiatolá em Kerbala, cidade sagrada xiita.

O avanço do EI foi facilitado pela recusa dos sunitas, tanto no Exército quanto nas tribos locais, em defender o governo do xiita Maliki, acusado de privilegiar os xiitas e de hostilizar os sunitas. Sistani ajudou na solução da crise, pressionando Maliki a deixar o cargo e permitindo a formação de um governo mais inclusivo. O Irã e políticos do partido de Maliki também retiraram o apoio ao então premiê e aprovaram o nome de Abadi. O chefe de governo interino disse ontem que em breve seria nomeado um gabinete com "uma visão clara".

Logo depois de suas declarações, um suicida detonou explosivos no horário de orações em uma mesquita xiita no bairro Nova Bagdá, matando 9 pessoas e ferindo 21. Outros dois carros-bomba explodiram em Kerbala, deixando 2 mortos e 17 feridos, de acordo com a agência Reuters.

O EI reivindicou quatro atentados com carros-bomba no fim de semana no Curdistão iraquiano. Três foram em Kirkuk, província petrolífera ocupada pelos peshmergas, soldados curdos, para evitar o avanço do grupo jihadista. Um ocorreu em Irbil, capital da região semiautônoma. / COM REUTERS

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