ONU denuncia sucessivos estupros em acampamentos em Darfur

A alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Louise Arbour, denunciou nesta quinta-feira que as mulheres dos acampamentos de refugiados da região sudanesa de Darfur são sistematicamente estupradas por grupos de rebeldes, sem que as autoridades do Sudão ofereçam o mínimo de segurança a elas."Estão aterrorizadas... Os homens não podem sair dos acampamentos porque são mortos. A única maneira de (as famílias) obterem alguma renda é que as mulheres saiam, mas elas sofrem estupros e agressões sexuais", disse Arbour.A alta comissária concedeu uma entrevista nesta quinta em Genebra para explicar sua última viagem a vários países do Chifre da África como Sudão, Etiópia e Somália, além do Quênia. Arbour também anunciou suas próximas viagens ao Camboja e à Guatemala.O Sudão vive uma situação de crise permanente, pois apesar de o conflito civil do sul do país ter acabado, após um recente acordo de paz, a região ocidental de Darfur continua sendo palco de confrontos entre vários grupos rebeldes, que também atacam os acampamentos de refugiados.Esses grupos não se somaram ao acordo de paz assinado em 5 de maio entre o governo e o principal grupo rebelde, o Movimento de Libertação do Sudão, razão pela qual persiste o conflito que causou de 180 a 300 mil mortos e 2,4 milhões de refugiados e deslocados.Essas pessoas vivem em acampamentos de refugiados na província ocidental sudanesa, na fronteira com o Chade, e dependem dos programas da ONU para se alimentarem."O número de agressões sexuais sofridas pelas mulheres não foi reduzido e não é uma situação que esteja sob controle", afirmou Arbour, jurista canadense, que durante sua viagem de cinco dias ao Sudão no início de maio se reuniu com autoridades do país, representantes de grupos rebeldes, ONGs e vítimas da violência.Os encontros entre representante do Alto Comissariado da ONU e vítimas de violência sexual foram "particulares". "O que me contaram segue sempre o mesmo padrão: ocorre a cada vez que as mulheres saem dos acampamentos de deslocados", afirmou Arbour."Muitas mulheres tiveram filhos depois desses estupros e estão muito preocupadas com suas crianças, porque não têm o nome de seus pais", afirmou Arbour.A alta comissária também disse que os agressores pertencem, em sua maioria, às milícias Janjaweed (aliadas de Cartum), o que "estigmatiza essas crianças em sua sociedade", majoritariamente cristã.Embora as autoridades sudanesas tenham anunciado a adoção de várias iniciativas para acabar com esse tipo de crime, na opinião de Arbour "são apenas iniciativas de papel"."As autoridades não vão aos acampamentos falar com as mulheres", disse, acrescentando que o discurso oficial se limita a pedir às delegacias números sobre esses crimes e que "a promotoria não investiga nem procura os criminosos".A segurança fora dos acampamentos de refugiados em Darfur é responsabilidade das forças de segurança sudanesas, mas Arbour afirmou que "nunca" viu uma patrulha na sua visita a esses acampamentos. "Não há progressos na luta contra a impunidade no Sudão. Os avanços são invisíveis".Segundo Arbour, "a situação da ajuda humanitária se vê impedida não só pelo conflito, mas também pela falta de entusiasmo dos doadores (internacionais)".Perante a escassez de recursos, o Programa Mundial de Alimentos (PAM), dependente da ONU, teve que reduzir este mês as porções alimentares que distribui em Darfur.Em relação à situação do sul do país, onde está vigente um acordo de paz, Arbour afirmou que o pacto dá alguma esperança à população, mas disse que o "Sudão não é um país que tem que ser reconstruído, mas construído em sua totalidade"."Não pode haver esperança de paz, se antes não houver desarmamento. No sul do Sudão ainda há muitas armas e os grupos armados continuam suas atividades. O mais urgente é o desarmamento e a desmobilização das milícias", afirmou.Arbour também se referiu à Etiópia e à Somália, outros dois países onde a situação dos direitos humanos "é muito séria". Na Somália "há um sentimento de frustração porque a comunidade internacional não está suficientemente comprometida", disse.

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