ONU é acusada de encobrir crimes de guerra no Afeganistão

A ONU está sendo acusada de não ter revelado no devido tempo as graves suspeitas de crimes de guerra que pesam sobre as forças militares afegãs da Aliança do Norte, integrantes da coalizão antiterrorista constituída pelos EUA. Mais de mil prisioneiros talebans foram mortos por asfixia em 2001 durante seu transporte em caminhões-contêineres, no norte do Afeganistão. Os cadáveres foram sepultados em vala comum, a apenas um metro e meio de profundidade e com o conhecimento de autoridades americanas - fato que já deveria justificar um inquérito, mas nada disso ocorreu. Por enquanto, o Pentágono afirma oficialmente que "nenhum militar americano ouviu falar dessas atrocidades". Para alguns analistas, fatos dessa natureza explicam a forte oposição dos EUA à criação do Tribunal Penal Internacional (TPI). Uma carta do diretor executivo da ONG Físicos pelos Direitos do Homem, Leonard Rubenstein, dirigida ao secretário-geral das Nações Unidas e hoje divulgada pelo jornal Le Monde, procura adverti-lo sobre a necessidade de a ONU apoiar as investigações sobre essas valas comuns e de sua preservação para que essas acusações possam ser esclarecidas. Segundo afirma a carta, a partir das provas obtidas pela equipe de médicos legistas da ONU, "é mais do que possível que um desses locais de sepultura tenha sido teatro de um crime de guerra de grande proporção". Esse depoimento merece crédito, pois dois médicos dessa ONG acompanharam o trabalho da comissão médica das Nações Unidas, ao lado de um médico legista do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos. Na mesma carta, Leonard Rubenstein afirma que os investigadores só puderam examinar um número limitado de corpos, mas tudo indica que eles pertencem à etnia pashtun, dominante entre os talebans. O exame dos corpos revela a ausência de traumatismo violento ou ferimentos por armas, privilegiando a tese da morte por asfixia, o que já havia dito anteriormente um funcionário das Nações Unidas, Manuel de Almeida e Silva. Rubenstein reivindica também uma investigação mais profunda que permita "a produção de provas cabais que possam estabelecer um relatório definitivo sobre as atrocidades cometidas". Na verdade, esse é um problema delicado para a ONU. Afinal, a entidade se encontra numa posição difícil, pois teria de investigar os crimes da Aliança do Norte antes mesmo de ter apurado e divulgado os resultados dos numerosos crimes praticados também pelos talebans. Além disso, ninguém havia localizado até hoje o relatório produzido pela comissão da ONU sobre esses acontecimentos, como se tivesse desaparecido misteriosamente.

Agencia Estado,

20 Agosto 2002 | 19h17

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