ONU e Kofi Annan recebem o Nobel da Paz

Dizendo que a "humanidade é indivisível", o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediu por uma cooperação internacional na luta contra a pobreza, a ignorância e as doenças. Annan e as Nações Unidas aceitaram e receberam hoje a edição centenária do Prêmio Nobel da Paz. Annan disse que os atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos mostraram que as divisões importantes não são mais de fronteiras mas, sim, entre os afortunados e os despossuídos, e que é extremamente alto o custo de se ignorar a dignidade humana, as liberdades e direitos fundamentais como segurança, alimentação e educação."Hoje, nenhum muro pode separar crises humanitárias ou de direitos humanos de uma parte do mundo de crises de segurança nacional em outra", afirmou. "O que começa com o fracasso em manter a dignidade de uma vida muitas vezes termina com a calamidade de nações inteiras".O presidente do Comitê Norueguês do Nobel entregou o prêmio, equivalente a US$ 950 mil e que inclui diplomas e medalhas de ouro, a Annan e ao presidente da Assembléia Geral da ONU, o ministro do Exterior sul-coreano Han Seung-soo, que representou o órgão mundial. Annan emprestou à ONU "um prestígio externo e uma moral interna poucas vezes vistos nos 50 anos de história da organização", disse o presidente Gunnar Berge.Num tributo ao 100º aniversário do prêmio, mais de 20 agraciados com o Nobel da Paz de anos anteriores, entre eles o lutador da liberdade de Timor Leste Jose Ramos-Horta e o sul-africano Desmond Tutu, uniram-se aos premiados deste ano no palco para a cerimônia de cerca de 90 minutos na Prefeitura de Oslo, em meio a estritas medidas de segurança.A família real norueguesa, outros dignitários e representantes de várias agências da ONU também participaram.Uma semana de festividades, incluindo um simpósio de três dias entre 28 Prêmios Nobel da Paz, seria concluída na noite de hoje com um banquete e um concerto de Paul McCartney e outras estrelas.Annan evocou o século passado, que sofreu duas guerras mundiais e brutais conflitos civis, para dizer que é importante confrontar novas ameaças à segurança que "não fazem distinções entre raças, nações ou regiões". "Entramos no terceiro milênio através de um portão de fogo", afirmou. "Se hoje, depois do horror de 11 de setembro, vemos melhor, e vemos mais além - perceberemos que a humanidade é indivisível"."No início do século XXI - um século já violentamente furtado de qualquer ilusão de que é inevitável o progresso no sentido da paz e prosperidade globais - esta nova realidade não pode mais ser ignorada", disse.Annan apresentou como prioridades da ONU a erradicação da miséria, a tentativa de evitar conflitos e a promoção da democracia. "Temos de nos concentrar, mais do que nunca, na melhoria das condições dos indivíduos, homens e mulheres".Fazendo referências ao Corão, confucionismo, budismo, à Torá e à Bíblia, Annan afirmou que todas as grandes religiões reconhecem os valores da tolerância, e isto deveria ser respeitado. "A noção de que o que é nosso está necessariamente em conflito com o que é deles... tem resultado em inimizades e conflitos sem fim, levando os homens a cometeem os maiores crimes em nome de um poder maior", disse.Annan também pediu aos países individualmente que respeitem o império da lei e não violem os direitos de seus cidadãos.Annan, um ganense de 63 anos, e as Nações Unidas, dividiram o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços pela paz e segurança no mundo, explicou o Comitê Norueguês do Nobel ao anunciar a premiação, em 12 de outubro. Os prêmios Nobel de Literatura, Medicina, Física, Química e Economia foram entregues hoje em Estocolmo, Suécia.Cerca de 3.000 estudantes noruegueses saudaram Annan antes do início da cerimônia. O secretário-geral da ONU, ao lado do príncipe herdeiro da Noruega, Mette-Marit, acendeu uma tocha da paz e falou brevemente.Annan tornou-se secretário-geral da ONU em 1997 e tem sido amplamente reconhecido por seus esforços no combate à miséria, abusos dos direitos humanos, conflitos na África, nos Bálcãs e Oriente Médio, e à epidemia de aids. Ele também enfrenta críticas por tentar negociar com o presidente iraquiano, Saddam Hussein, e por não ter sido mais incisivo quando soldados de paz da ONU foram seqüestrados em Serra Leoa.Annan começou a trabalhar para as Nações Unidas em 1962 como um administrador da Organização Mundial da Saúde em Genebra. Ele foi o primeiro líder da ONU que saiu dos quadros da organização e foi reeleito por unanimidade para um novo mandato de cinco anos, em junho último.Pelo menos 13 agências da ONU e pessoas ligadas a ela já haviam ganhado anteriormente o Nobel da Paz, mas ele nunca tinha sido concedido à organização propriamente dita. O secretário-geral da ONU Dag Hammarskjold recebeu um prêmio póstumo.Fundada em 1945 por 51 nações, as Nações Unidas quase quadruplicaram seus membros para 189 e agora empregam cerca de 52.100 pessoas em sua sede em Nova York e em 29 outras agências em todo o mundo. Criada ao final da Segunda Guerra Mundial como uma esperança de paz global, a ONU continua sendo um local singular de reunião de nações do mundo, tentando resolver pacificamente problemas internacionais.Os Prêmios Nobel da Paz são sempre entregues em 10 de dezembro, marcando a data em que seu benfeitor, o industrialista sueco Alfred Nobel, morreu em 1896.O prêmio do ano passado foi concedido ao presidente sul-coreano Kim Dae-jung.

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