ONU: Em dois meses, 6 mil civis morreram no Iraque

Quase seis mil civis iraquianos foram assassinatos no Iraque entre maio e junho, um crescimento no número de vítimas que reflete a ascensão da violência sectária no país, afirma um relatório das Nações Unidas (ONU). Só nesta terça-feira, 57 iraquianos morreram depois que um carro-bomba explodiu próximo a um grupo de operários na cidade de Kufa.O documento da Missão de Assistência da ONU no Iraque descreve em detalhes o número de mortos, cifra gerada pela instabilidade e insegurança desencadeada por séries de crimes como assassinatos, tortura, estupros e intimidação.Centenas de professores, juízes, líderes religiosos e médicos foram alvos de ações criminosas e outras centenas de pessoas deixaram suas casas em bairros mistos para outras partes do país ou para o exterior, informa o relatório. Evidências apontam que militantes também começaram a considerar homossexuais como alvos ou a exigir que suas famílias os matem, prossegue o documento."Enquanto reconhecemos os recentes esforços positivos feitos pelo governo (iraquiano) para promover a reconciliação nacional, o relatório aciona o alarme para o crescimento do número de mortes entre os civis durante ataques indiscriminados de terroristas ou insurgentes", diz uma nota da ONU que acompanha o relatório.Segundo o documento, 2.669 civis foram mortos em maio e 3.149 em junho. Os números reúnem duas contagens: a do Ministério da Saúde, que registra mortes em hospitais do país; e do Istituto Médico Legal de Bagdá, que contabiliza os corpos não identificados. Não foi determinado se o número de mortos do IML inclui apenas as vítimas de violência. Crescimento mensalO documento registra um crescimento mensal no número de civis mortos, de 710 em janeiro para 1.129 em abril. Nos primeiros seis meses do ano, 14.338 pessoas foram mortas.A ONU também detalha o aumento no número de seqüestros, particularmente de grandes grupos de pessoas. No dia 17 de maio, por exemplo, o relatório afirma que 15 atletas de Tae-Kwon-Do foram seqüestrados na região oeste de Bagdá.As mulheres iraquianas também denunciaram que houve um retrocesso em seus direitos por parte de grupos extremistas muçulmanos, tanto xiitas como sunitas. Durante o regime majoritariamente secular de Saddam Hussein as mulheres enfrentavam poucas restrições sociais, e agora afirmam que estão proibidas de ir ao mercado sozinhas, usar calças ou dirigir automóveis.O relatório também alega que o governo ainda não investigou de maneira satisfatória as muitas denúncias de tortura e outros tipos de tratamento inumano em prisões e centros de detenção. Os números apresentados pelo documento da ONU foram bem maiores que outras estimativas, mas a própria ONU afirma que muitas outras mortes não foram reportadas.De acordo com a contagem da agência Associated Press, baseada em seu noticiário diário, pelo menos 1.511 civis foram mortos e 2.218 ficaram feridos entre maio e junho. Entre janeiro e junho de 2006, pelo menos 4.191 civis morreram e 5.117 ficaram feridos. AtentadoReforçando os números divulgados pelo relatório da ONU, nesta terça-feira um atentado terrorista na cidade de Kufa deixou pelo menos 57 mortos. Segundo contagem do jornal britânico The Guardian, o total de mortos chegou a 59. Um suicida reuniu um grupo de operários em torno de sua caminhonete, supostamente oferecendo levá-los a algum lugar, e depois detonou a carga explosiva.Testemunhas disseram que, após a explosão, vários cidadãos que estavam na área jogaram pedras contra os policiais que chegaram no lugar da explosão. Os oficiais reagiram atirando para o alto a fim de dispersar a multidão.A cidade de Kufa é reduto do líder das milícias do Exército Mehdi, o radical xiita Moqtada al-Sadr. A explosão aconteceu a cerca de 200 metros da mesquita de Muslim Ibn Akil, uma das mais antigas da cidade. O governador da cidade xiita de Najaf, ao sul de Bagdá, Asaad Abu Kalal, em uma entrevista ao canal de televisão iraquiano Eufrates, responsabilizou os "criminosos ´baathistas´ (do ex-partido governante Baath) e os terroristas procedentes da região de Mahmudiya" pelo ataque desta terça.MassacresEste foi o terceiro massacre em três dias no Iraque. O primeiro aconteceu no domingo, quando a explosão de um carro-bomba dirigido por um suicida próximo a uma mesquita na localidade de Tuz Khurmatu, a 170 quilômetros ao nordeste de Bagdá, deixou pelo menos 29 mortos. Outras 27 pessoas ficaram feridas, segundo fontes policiais.Em Bagdá, vários insurgentes, com metralhadoras e artefatos explosivos, atacaram um mercado situado no "triângulo da morte", ao sul da capital iraquiana, e deixaram 40 feridosCom estes três atentados, a violência sectária volta ao país apesar do plano de segurança lançado no mês passado e da iniciativa de reconciliação nacional apresentada ao Parlamento pelo primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki.O plano de Maliki tinha como objetivo incluir os grupos de insurgentes árabes sunitas no processo político e colocar fim à violência no país, mas, até o momento, não houve resultados práticos.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.