Adriana Carranca/AE
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ONU estuda opções para saída do Haiti

Após 12 anos, Nações Unidas avaliam retirada progressiva; possibilidade é a de converter operação de paz em missão política a partir de 2017

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

12 Abril 2016 | 20h23

A ONU quer começar a sair do Haiti, depois de 12 anos de presença de tropas internacionais. Mas, para isso, terá de organizar uma transição e ter garantias do governo local de que terá capacidade para arcar com a segurança no país mais pobre do Hemisfério Sul. 

A Missão de Paz poderá ser transformada, em 2017, em uma missão política, mais enxuta e sem soldados ou policiais. Mas, até que uma decisão seja tomada, o governo brasileiro garante que ficará no Haiti e no comando das tropas, como vem fazendo desde 2004, e indica que está disposto a assumir um novo mandato.

Oficialmente, a operação da ONU no Haiti acaba em outubro. Um dos cenários é o de que, com as eleições nas próximas semanas e uma eventual estabilização política, um plano poderia ser desenhado para, progressivamente, reduzir a presença internacional. Uma das opções seria a de renovar o mandato da operação por mais seis meses e transferir a decisão final para março de 2017.

Diplomatas consultados pelo Estado e envolvidos na negociação garantem que será fundamental não precipitar uma saída, o que colocaria em risco os ganhos de estabilização da última década. Desde 2004, só o Brasil já investiu mais de R$ 2,3 bilhões em suas tropas no Haiti, sendo reembolsado pela ONU em cerca de R$ 1 bilhão.

Mas outra negociação se refere a quem lideraria a retirada. A crise política no Brasil tem feito parte das considerações das Nações Unidas. 

Retirada. No ano passado, o então ministro da Defesa, Jacques Wagner, havia declarado no Senado que a missão no Haiti acabaria em 2016, “não por decisão nossa, porque, na medida em que nos incorporamos a um programa desses, ficamos um pouco submetidos à decisão das Nações Unidas”. “No ano que vem, a previsão é de retirada total das forças não só do Brasil, mas das Nações Unidas”, afirmou. 

Também pesa sobre o Brasil a pressão da ONU para que arque com suas dívidas sem precedentes. Até segunda-feira, ela chegava a R$ 1,3 bilhão. Se parte desse déficit não for solucionado, o Brasil corre o risco de perder o direito ao voto em 2017. 

Nos últimos meses, porém, o governo voltou a tratar dessa situação com a cúpula da ONU. Neste ano, militares brasileiros que estiveram nas Nações Unidas sinalizaram que as tropas estariam em condições de ficar no Haiti, caso fosse necessário para completar a transição. 

No fim de fevereiro, a presidente Dilma Rousseff também tratou do assunto com Michelle Bachelet, presidente do Chile. Santiago também tem sido um dos principais colaboradores no Haiti. 

Uma decisão definitiva não foi tomada, até mesmo diante da instabilidade do atual governo. Mas uma das ideias que ganha força é a de que, se a transição for por tempo limitado, o Brasil poderia ampliar seu mandato e completar a missão de mais de uma década. 

Ao Estado, o Ministério da Defesa confirmou que, no caso de uma renovação do mandato por mais seis meses, a intenção é de permanecer no Haiti. “O Brasil tem a intenção de permanecer na Minustah, aguardando os futuros entendimentos com a Organização das Nações Unidas”, indicou. 

“O Ministério da Defesa nunca declarou que entregará, em outubro, o comando da missão de paz das Nações Unidas no Haiti. Não existe qualquer intenção nem manifestação de interromper a presença brasileira na região”, disse o ministério, em nota. 

Fontes do alto escalão da ONU tinham afirmado ao Estado que a instabilidade política no Brasil e a incapacidade do País em pagar suas contas tinham aberto uma corrida por parte de governos que, na esperança de ganhar uma vaga no Conselho de Segurança da ONU, se lançaram em negociações para assumir o posto ocupado pelo Exército brasileiro.

Segundo essas fontes, um dos casos em estudo seria o do Canadá.

O novo primeiro-ministro, Justin Trudeau, havia colocado como uma de suas promessas de campanha a volta do país ao cenário internacional. A imprensa canadense tinha revelado, no início de março, a possibilidade de uma participação mais ativa no Haiti e abriu os debates no país – com a oposição ao governo alertando que essa não era uma ideia a ser aprovada.

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