ONU estuda qualificar violência no Congo de 'genocídio'

Crimes cometidos no Congo pelo Exército de Ruanda e por rebeldes congoleses durante a década de 1990 podem ser classificados como genocídio, segundo um relatório ainda não divulgado da Organização das Nações Unidas (ONU), uma acusação que deve causar tensão entre Ruanda e a entidade.

DAVID LEWIS, REUTERS

26 de agosto de 2010 | 18h04

Um especialista em Congo disse que os diplomatas estão discutindo a conveniência de incluir a acusação, altamente delicada, na versão final do documento, que detalha crimes cometidos no antigo Zaire entre 1993 e 2003.

Esse período inclui a queda do ditador Motubu Sese Seko e um conflito de cinco anos envolvendo seis exércitos estrangeiros, inclusive o de Ruanda, dominado pela etnia tutsi. Milhões de pessoas morreram no conflito, a maioria de fome e doenças evitáveis.

Após reprimir o genocídio de 800 mil tutsis em 1994 em Ruanda, o Exército desse pequeno país invadiu o Congo, sob a justificativa de perseguir rebeldes genocidas da etnia hutu que estariam refugiados ali.

Nesse processo, as forças de Ruanda contribuíram com a ascensão das forças de Laurent Kabila ao poder no Congo. Ambas as forças foram acusadas de diversos abusos contra soldados e civis hutus no Congo.

"Os ataques sistemáticos e disseminados (contra hutus no Congo) descritos ... revelam um número de elementos danosos que, se provados diante de uma corte competente, poderiam ser classificados como crime de genocídio", disse o relatório, ao qual a Reuters teve acesso na quinta-feira.

"O amplo uso de armas brancas ... e os massacres sistemáticos de sobreviventes depois de acampamentos (hutus) serem tomados mostram que as numerosas mortes não podem ser atribuídas aos infortúnios da guerra, nem equiparadas a danos colaterais", afirma o texto.

Segundo o jornal francês Le Monde, Ruanda ameaçou retirar seus soldados da força de paz no Sudão por causa dessas acusações. A Reuters não localizou nenhuma autoridade ruandesa que pudesse comentar.

Um porta-voz do Acnur (agência de refugiados da ONU), que redigiu o relatório de 545 páginas, disse que o documento vazado era um esboço, ainda contendo erros.

O texto detalha cerca de 600 crimes sérios, cometidos por várias facções de diversas nações, mas o autor Jason Stearns, especialista em Congo, disse que Ruanda aparece pior.

"A acusação de que o Exército ruandês poderia ser culpado de atos de genocídio contra refugiados hutus irá macular fortemente a reputação de um governo que se orgulha de ter levado ao fim o genocídio contra os tutsis em Ruanda", disse ele.

O relatório final deve ser apresentado na semana que vem pelo Acnur.

(Reportagem adicional de John Irish, em Paris; e de Stephanie Nebehay, em Genebra)

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