'ONU fracassou na busca da solução política'

Os combates se intensificaram no leste da República Democrática do Congo na última semana, após o fracasso das negociações de paz entre o governo e M23, grupo rebelde ligado a Ruanda. Nessa entrevista, Jason Stearns, autor de Dancing in the Glory of Monsters (dançando na glória dos monstros, em tradução livre), sobre o colapso do Congo, dá sua visão do conflito que já deixou quase 6 milhões de mortos - o mais sangrento desde a 2.ª Guerra. Jason viveu uma década no Congo e liderou a investigação, a pedido da ONU, sobre a violência no país,

Entrevista com

MASISI, REP. DEMOCRÁTICA DO CONGO, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2013 | 02h13

Por que o fracasso na negociação?

Há acordos sobre todos os itens, exceto um, que sempre foi o principal obstáculo: como integrar os líderes do M23, muitos deles acusados de crimes contra a humanidade. Como negociar com um grupo se um acordo está condicionado à prisão de seus líderes? O M23 nunca vai negociar o próprio suicídio.

O governo congolês deu sinais de que pretende aumentar a ofensiva militar para pressionar mais o M23, com apoio das tropas de paz. O sr. concorda?

Acho que a estratégia por trás disso não é um acordo com o M23, mas com Ruanda, que o apoia. Ruanda nunca esteve na mesa de negociações porque não admite apoiar o M23, mesmo a portas fechadas.

A comunidade internacional falhou em pressionar Ruanda?

Essa é a grande questão. O ápice da pressão internacional sobre Ruanda foi no ano passado, quando a comunidade internacional suspendeu algo entre US$ 200 milhões e US$ 300 milhões em ajuda para Ruanda e isso é mais de 10% do orçamento do país. Se Ruanda fosse se render a pressão, já o teria feito e não o fez. As sanções acabaram levantadas. Acabar com o M23 deixaria Kigali sem um aliado na região. Então, a única carta que a comunidade internacional tem agora é a brigada intervenção (criada em março para aumentar o poder de força das tropas de paz da ONU, sob comando do general brasileiro Alberto dos Santos Cruz).

Então, o sr. acha que é positiva a escalada militar?

Não defendo a escalada da força militar, porque isso poder custar vidas e ter resultados desastrosos, mas, ao mesmo tempo, não tenho muita fé na habilidade da comunidade internacional de exercitar a pressão diplomática sobre Ruanda e isso deixa como único caminho a escalada militar. Se a pressão sobre o M23 for forte a ponto de deixar evidente que o grupo não teria capacidade de continuar lutando sem o apoio de um Exército regular, da Ruanda, talvez Kigali se sinta forçado a negociar. Paul Kagame não vai arriscar entrar em combate direto com as tropas de paz e ser acusado de crimes de guerra.

Relatório da ONG Enough aponta que o M23 já controla as minas de ouro do Congo. A disputa étnica ainda é o que faz Ruanda financiar os insurgentes?

Ruanda está envolvido nos conflitos no Congo por uma série de motivos, que não podem ser reduzidos à questão econômica ou a questão étnica. Ruanda vê o leste do Congo como parte de seu território de influência. É verdade que o maior setor de economia é a mineração e que os minerais exportados por Ruanda são congoleses. Mas também é verdade que se trata de um governo obcecado por segurança, o que tem origem no genocídio de tutsis em Ruanda, em 19914. É um governo que chegou ao poder por uma rebelião. E o leste do Congo (onde se refugiaram as milícias hutus responsáveis pelo genocídio) é onde seria mais provável que surgisse uma insurgência contra o governo de Kigali.

Por que a ONU falhou em fazer pressão suficiente sobre Ruanda e Congo por um acordo político?

A comunidade internacional coloca bilhões de dólares por ano em ajuda humanitária e nas tropas de paz, enquanto a solução está em Kinshasa e Kigali. De certa forma, é mais fácil dar dinheiro do que investir no engajamento necessário para chegar a uma solução política. Os EUA doam milhões de dólares a Ruanda e há um lobby muito grande para que continue doando, porque o governo conseguiu avanços na saúde e governança e é provavelmente o exemplo mais positivo da ajuda estrangeira na África. Ao mesmo tempo sabemos que financia o M23 no Congo, que obrigam a Casa Branca a gastar ainda mais em resposta humanitária à região. Os próprios EUA acusam o governo da Ruanda financia o M23, mas financia os estudos dos filhos de autoridades - entre eles, o filho de Paul Kagame (presidente de Ruanda) - em escolas militares americanas. É uma situação bizarra.

O sr. vê solução para o impasse?

O M23 representa o último suspiro da intervenção do governo de Ruanda no leste do Congo. E o FDLR (anti-Ruanda) só persiste por causa do M23. Se você neutralizar estes dois grupos, você não acabará com a guerra, mas terá um Congo mais estável. / A.C.

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