ONU impõe sanções contra pirataria; países propõem patrulha

Piratas pedem US$ 25 milhões de resgate por petroleiro saudita; 15 nações lançarão operação conjunta

Agências internacionais,

20 de novembro de 2008 | 14h59

O Conselho de Segurança da ONU adotou nesta quinta-feira, 20, uma resolução que impõe novas sanções a pessoas e entidades vinculadas aos piratas que atuam contra o comércio marítimo internacional no litoral da Somália. A resolução apresentada pelo Reino Unido, e que recebeu o apoio unânime dos 15 membros do órgão, também reafirma o embargo de armas imposto à Somália desde 1992. Vários países do mundo se preparam para enviar navios de guerra ao Golfo de Aden, na tentativa de proteger uma das mais importantes rotas comerciais do planeta do ataque de piratas somalis, que intensificaram suas ações nos últimos dias. Cinco navios da União Européia deverão chegar à região no dia 8 de dezembro, na primeira operação conjunta do tipo do grupo de 15 países.       Veja também: Mapa de todos os ataques reportados Rússia pode mandar mais navios contra pirataria na Somália   Ainda nesta quinta, os piratas somalis que seqüestraram o superpetroleiro Sirius Star exigiram US$ 25 milhões como resgate. O petroleiro é o maior navio já capturado por piratas somalis, com uma carga estimada em US$ 100 milhões. A Coréia do Sul estuda a possibilidade de enviar um destróier para a costa africana, depois que um navio japonês foi seqüestrado com cinco marujos sul-coreanos. Em Tóquio, o primeiro-ministro Taro Aso pediu ao Parlamento que mude a legislação em vigor desde o fim da 2ª Guerra Mundial que impede ofensivas militares do Japão, para que o país também possa mandar navios ao Golfo de Aden.   A União Africana apontou que o aumento da pirataria reflete a piora da segurança na Somália. O chefe da Comissão da União Africana, Jean Ping, pediu em comunicado "esforços mais fortes e coordenados" para que o país se estabilize. Solicitou também o envio rápido de uma força de paz das Nações Unidas. Na quarta-feira, o ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, príncipe Saud al-Faisal, disse que os proprietários negociavam com os piratas. A empresa que opera o Sirius Star nem confirmou nem negou as negociações.   "Nós não queremos discussões longas para resolver o assunto", explicou Mohamed Said, um dos piratas que seqüestraram o Sirius Star, falando por telefone do navio. Há 25 tripulantes a bordo - 19 das Filipinas, dois do Reino Unido, dois da Polônia, um da Croácia e um da Arábia Saudita. Também foi estabelecido pelos piratas um prazo de dez dias para a resolução do problema.   O navio Sirius Star, que ia da Arábia Saudita para os EUA pelo sul da África, foi seqüestrado cerca de 450 milhas náuticas a sudeste do porto queniano de Mombaça, muito distante do Golfo de Áden - o "Beco dos Piratas", como é conhecido o trecho onde muitos navios são raptados. A captura também aconteceu apesar de uma resposta naval na região, incluindo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Européia, para proteger uma das mais importantes rotas marítimas do mundo. Navios de guerra dos Estados Unidos, da França e da Rússia também estão na área.   Na quarta-feira, uma fragata militar indiana destruiu um dos barcos pesqueiros que vinham sendo usados por piratas somalis para seqüestrar navios e tripulações na costa leste da África. A operação marcou o que pode ser o início de uma contra-ofensiva à ação de corsários que, desde janeiro, já capturaram mais de 90 embarcações e fizeram cerca de 500 reféns, ameaçando uma das principais rotas do comércio marítimo mundial.   A fragata INS Tabar abriu fogo contra o barco pirata quando navegava no Golfo de Áden, a 525 quilômetros da costa de Omã. "Houve incêndio e explosões no pesqueiro, provavelmente por causa da munição estocada", disse a Marinha indiana, em comunicado.Desde sábado - quando os corsários seqüestraram o saudita MV Sirius Star, um dos maiores superpetroleiros do mundo - pelo menos outros três ataques já foram registrados, envolvendo um pesqueiro tailandês e dois cargueiros, um de bandeira grega e outro de bandeira chinesa. O príncipe saudita Saud al-Faisal disse que a empresa dona do superpetroleiro já está negociando o pagamento de resgate.   Escolta   A companhia americana de segurança Blackwater - polêmica pela ação mercenária no Iraque - enviará nas próximas semanas uma embarcação com heliporto e 40 homens, para prestar serviço de escolta armada às empresas marítimas. Um dos principais destinos dos navios seqüestrados tem sido Eyl, uma antiga vila de pescadores na costa somali. Pelo menos 12 navios - um deles carregando 33 tanques e grande quantidade de armas - são mantidos na praia, à espera de resgate para serem liberados.   A chegada de centenas de piratas, a maioria portando aparelhos GPS, fuzis e lança-granadas, mudou a bucólica vila de 7 mil habitantes. "Todos os estudantes secundaristas estão deixando a escola para ir a Eyl porque eles vêem como seus amigos conseguiram ganhar muito dinheiro", disse o vice-ministro da Pesca na região de Puntland, Abdulqaadir Muuse Yusuf. "Primeiro nós compramos uma bela casa e um carro. Depois, armas. O restante do dinheiro nós usamos para relaxar", contou um dos piratas ao jornal britânico The Guardian. Naimo, de 21 anos, disse que se casou no mês passado com um pirata que ela "nunca tinha visto antes". "É verdade que as garotas têm interesse em se casar com piratas por que eles têm muito dinheiro. Homens comuns não podem pagar por casamentos como esse."     Pirataria africana   A pirataria tem elevado o custo dos seguros, além de obrigar algumas embarcações a contornarem toda a África em vez de usarem o canal de Suez, elevando os gastos com frete. Os piratas já obtiveram milhões de dólares em resgates nos últimos anos, e agora realizaram um dos ataques mais ousados e espetaculares da história marítima. rota do Cabo da Boa Esperança remete os navegadores aos primórdios do comércio marítimo com o Oriente, aumentando o tempo de navegação em até 15 dias a um custo diário adicional de até US$ 30 mil.   Para evitar a patrulha de navios militares, os piratas têm ampliado o raio de suas ações além do Golfo de Áden, em direção à costa sudeste da África, na altura do Quênia. Especialistas em segurança recomendam que as empresas deixem de pagar resgates e passem a contratar empresas de segurança privada.   A recente onda de seqüestros torna ainda mais importante a necessidade de pôr fim aos 17 anos de conflito na Somália. Para os especialistas, enquanto não houver um governo central na Somália, a pirataria continuará e tentativas militares de lidar com o problema fracassarão. Exceto por um breve período em 2006 (quando uma milícia islâmica conseguiu se manter no poder), a Somália vive mergulhada na anarquia desde 1991, quando milícias derrubaram o ditador Siad Barre. O caos tornou o país o mais falido do mundo, onde quase metade da população depende de ajuda humanitária para sobreviver.   (Com Cláudia Trevisan, de O Estado de S. Paulo)

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