ONU não critica governo, mas propõe investigação em Darfur

O novo órgão supervisor dos direitos humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) esquivou-se mais uma vez nesta quarta-feira em criticar o governo sudanês pelas atrocidades cometidas na região de Darfur, no oeste do país. Ainda assim, os 47 países que formam o Conselho de Direitos Humanos concordaram em enviar uma missão de alto nível ao Sudão para investigar as acusações de violação dos direitos humanos contra a população civil. Acredita-se que o governo sudanês apóia as milícias islâmicas que sistematicamente têm assassinado, estuprado e destruído vilarejos das populações não árabes da região. O órgão está realizando a primeira sessão especial sobre Darfur, e aprovou por unanimidade uma proposta que expressa "preocupação em relação às sérias violações dos direitos humanos em Darfur" e pede pela nomeação de cinco membros "altamente qualificados" para investigar as atrocidades. A escolha dos membros da equipe ficará a cargo do presidente do conselho.Lançado em junho como parte de uma reforma da ONU, o Conselho estava sob pressão para provar que poderia agir com eficiência em Darfur, onde autoridades dizem que mais de 200 mil pessoas já morreram em razão da violência nos últimos três anos. Estima-se também que mais de 2 milhões de pessoas já foram deslocadas por causa da violência na região.Ainda assim, a resolução evitou qualquer menção sobre o papel do governo sudanês ou das milícias árabes acusadas de participar dos ataques aos civis. O Sudão rejeita as acusações.Os membros europeus do Conselho queriam uma resolução que condenasse o governo Sudanês. Mas, diante da resistência dos países africanos, concordaram com a possibilidade de envio de diplomatas à Darfur. "Não devemos descartar qualquer esforço para aliviar o sofrimento da população de Darfur, e para impedir violações futuras", disse o embaixador finlandês Vesa Himanen, que representa a União Européia. Ainda segundo Himanen, era possível que a maioria dos países do Conselho aprovasse uma resolução condenando o Sudão. "Mas esse tipo de resolução não teria o mesmo valor" de uma aceita por unanimidade, ressalvou. BrasilComo mostrou o Estado em reportagens nesta quarta e terça-feira, o Brasil possivelmente rejeitaria uma resolução com caráter condenatório. Empenhada em estreitar os laços com países africanos, a diplomacia brasileira vinha defendendo uma postura de "neutralidade" diante das acusações de culpados para as violações.Durante a sessão de abertura, na terça-feira, o secretário geral da ONU, Kofi Annan, disse que o conselho deveria ajudar a acabar com o "pesadelo" da violência, enviando uma "mensagem clara e harmoniosa de que a atual situação é inaceitável".A Anistia Internacional, por sua vez, foi dura com o teor da resolução, que classificou como tímida e complacente. "A missão de enviados do Conselho de Direitos Humanos deve por um fim nas vergonhosas mentiras e negações de responsabilidade do governo sudanês para a situação em Darfur", pronunciou-se a entidade.Após dois dias de questionamentos sobre quem faria parte da missão, foi decidido que o presidente do conselho, o embaixador mexicano Luis Alfonso de Alba, deveria nomear a equipe, e que ela seria acompanhada pelo investigador especial da ONU para o Sudão, Sima Samar, do Afeganistão.Texto ampliado às 16h35

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