ONU, o campo de jogo da Rússia

Acordo que evitou intervenção na Síria demonstra habilidade de Moscou em manejar diplomacia na organização

É JORNALISTA, COLUM , LYNCH , FOREIGN POLICY, É JORNALISTA, COLUM , LYNCH , FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2013 | 02h10

O secretário de Estado americano, John Kerry, e o chanceler russo, Sergei Lavrov, reuniram-se na quinta-feira sob o olhar gélido do presidente russo, Vladimir Putin - cujo retrato estava pendurado na parede da sala onde as autoridades negociavam na sede da ONU -, e firmaram um acordo para a resolução do Conselho de Segurança da organização sobre a destruição das armas químicas da Síria.

O retrato presidencial lembrava sutilmente que os diplomatas de alto escalão de Putin tinham a vantagem de jogar em seu próprio campo na ONU. Lavrov chefia há dez anos a delegação da Rússia na ONU; o enviado de Putin, Vitali Churkin, representou o seu país na entidade durante sete anos.

Em conjunto, eles têm uma experiência muito maior dos meandros das normas do Conselho de Segurança do que seus colegas americanos. O vice-chanceler da Rússia, Gennadi Gatilov, ex-membro da delegação diplomática da Rússia, era na realidade funcionário das Nações Unidas.

A equipe de segurança nacional dos Estados Unidos é composta praticamente por novatos em questões referentes à organização. Como ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, Kerry frequentemente trabalhou na área da diplomacia da ONU, e Susan Rice, assessora de segurança nacional do presidente Barack Obama, é um dos enviados americanos que há mais tempo estão na ONU - e uma interessada e habilidosa parceira de Churkin. Samantha Power, embora ainda não tenha sido testada nas reuniões do Conselho de Segurança, foi durante anos uma estudiosa aplicada da ONU, para a qual redigiu relatórios de campo na África e nos Bálcãs, e é autora de uma biografia do diplomata brasileiro na ONU, Sérgio Vieira de Mello.

Nos dois últimos anos, foram Lavrov e Churkin que definiram em grande parte as regras do jogo no Conselho de Segurança, obrigando efetivamente americanos e europeus a usarem o Conselho de Segurança para a aplicação de pressões econômicas e políticas contra o regime do presidente sírio, Bashar Assad. O acordo fechado na quinta-feira é o exemplo mais recente disso.

Depois do suposto ataque com armas químicas pelo governo sírio, em 21 de agosto, nos subúrbios de Damasco, os Estados Unidos ameaçaram pela primeira vez ignorar a ONU e realizar ataques aéreos contra a Síria. A ameaça fez com que Damasco apresentasse as maiores concessões já oferecidas nos dois anos e meio de guerra civil, concordando com um plano russo de destruição dos estoques químicos de Assad sob a supervisão internacional. Mas desde então, Putin convenceu Obama a administrar a destruição das armas químicas da Síria por intermédio do Conselho de Segurança, no qual Moscou tem o poder de vetar qualquer sanção futura ou ameaças militares contra o regime.

"Ao longo de toda a crise síria, o modus operandi de Lavrov tem procurado tornar cada vez mais complexas as questões de procedimento dos EUA na ONU; ele é o líder absoluto dos procedimentos na ONU", disse Richard Gowan, que tem conhecimento de especialista sobre as Nações Unidas e leciona na New York University. "Hillary Clinton e Kerry são políticos dotados de uma ampla experiência, mas a de Lavrov é maior no que se refere ao conhecimento das normas e dos procedimentos internos."

Isso ficou claro na questão do acordo de Genebra e vimos como se traduziu na resolução relativamente branda do Conselho de Segurança. "O acordo de Genebra, negociado em 2012 por Lavrov e Hillary Clinton, prevê o estabelecimento de um governo de transição na Síria. "A grande capacidade de Lavrov está em projetar seriedade como homem com o qual se pode negociar e acho que ele agrada muito a Kerry", disse Gowan. "Nas negociações de Genebra percebe-se que talvez Kerry tenha procurado fazer valer sua relação pessoal com Lavrov e a capacidade de construir com o russo um relacionamento real de homem para homem. Este contrabalança recorrendo ao manual. Lavrov está menos disposto a adequar as normas da ONU do que Kerry."

Os EUA, como a equipe de segurança nacional de Obama tem ressaltado reiteradamente, nunca retiraram totalmente da mesa a ameaça de uma ação militar. Mas um pacto russo-americano firmado há duas semanas em Genebra, segundo o qual as armas químicas da Síria seriam colocadas sob o controle internacional, elevará consideravelmente o limite para a aprovação de um ataque no futuro. "Como Sergei Lavrov sabe, de maneira nenhuma haveria um debate no Conselho de Segurança" para determinar se as sanções ou a força militar seriam permitidas, disse Kerry numa coletiva conjunta com Lavrov no dia 14. "Quanto à questão do uso da força... o comandante- chefe sempre se reserva o direito de defender os EUA e os nossos interesses."

Entretanto, a realidade é mais complexa. Uma resolução da ONU não ameaça com sanções automáticas a Síria se ela não cumprir suas obrigações ou mesmo se lançar novo ataque químico.

Funcionários americanos elogiaram o acordo como um pacto histórico que fortalece o esforço internacional para deter o uso de armas químicas.

Kerry disse esperar que "essa resolução agora dê início à retirada e destruição das armas químicas na Síria". Se a Síria cumprir sua parte, o acordo constituirá uma façanha diplomática para Obama e Kerry. Mas se a Síria trapacear, o presidente se sentirá obrigado a agir.

Segundo os termos da resolução, uma comissão de diplomatas e funcionários das Nações Unidas e da Organização para a Proibição de Armas Químicas determinará se a Síria violou os termos do acordo.

A questão passaria então a ser tratada pelo Conselho de Segurança. Em princípio, a Rússia concorda, no caso de violação da Síria, com medidas previstas pelo Capítulo 7 da Carta da ONU - uma cláusula usada para autorizar sanções ou o uso da força militar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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