Mauricio Dueñas Castañeda/EFE
Mauricio Dueñas Castañeda/EFE

ONU pede ajuda de EUA e UE para Venezuela

Adotando o modelo que já aplicou no Iêmen, as agências da ONU abandonaram o tom diplomático e passaram a qualificar a situação como 'crise humanitária'

Jamil Chade, Correspondente / Genebra , O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2018 | 05h00

GENEBRA - Prevendo um aumento do êxodo de venezuelanos em 2019, a ONU pediu ajuda de Europa, EUA e outros países ricos para impedir que o fluxo desestabilize a América do Sul. A avaliação em Genebra é a de que os países sul-americanos já esgotaram seus recursos para lidar com a crise e, diante de milhões de deslocados, o temor é de que a crise e a violência se proliferem. 

Adotando o modelo que já aplicou no Iêmen, as agências da ONU abandonaram o tom diplomático e passaram a qualificar a situação como “crise humanitária”. No total, até o fim de 2019, a crise pode atingir 5,4 milhões de pessoas. Desses, mais de 3 milhões seriam migrantes e refugiados venezuelanos, além da população local dos países fronteiriços. 

No dia 14, a entidade anunciará um plano para lidar com o êxodo de refugiados da Venezuela. No evento, a ONU tentará convencer doadores internacionais a resgatar os países da região diante do fluxo sem precedentes. “Esta é uma tempestade perfeita. Ninguém conseguirá dar uma resposta sozinho”, afirmou ao Estado o diretor do Programa Mundial de Alimentação da ONU, David Beasley.

Ele lembra que, há sete meses, alertou em Washington que existia o risco de a situação se deteriorar. "Muita gente não acreditou. Hoje, isso está confirmado", lamentou. Sua esperança é de que o governo americano aumente as doações para a região, principalmente em alimentos. "Se as pessoas tiverem o que comer, pelo menos não continuaram em sua marcha para outros lugares", ponderou.

Para ele, o que preocupa não é apenas a Venezuela. "O que poderemos ver é um cenário com várias tormentas que estão surgindo ao mesmo tempo na América do Sul e América Central", alertou. Beasley indicou que vem pedindo acesso ao território venezuelanos. "Mas não fomos autorizado a entrar na Venezuela", disse. "Isso é uma crise humanitária. As pessoas estão morrendo de fome. Se isso não é uma crise humanitária, então eu não sei o que é uma crise", criticou. 

O temor da ONU é de que, sem recursos internacionais, países como Peru, Colômbia ou mesmo Brasil comece a ver um aprofundamento da reação xenófoba contra a população venezuelana, além da desestabilização de algumas regiões mais pobres. Por isso, uma da estratégias será a de investir em comunidades receptoras desses imigrantes, na esperança de fortalecer escolas, sistemas de saúde e mesmo moradia. 

Ontem, a ONU incluiu pela primeira vez a Venezuela na lista das piores crises humanitárias do mundo. No total, estima-se que, para atender a todas as vítimas em 2019, serão necessários US$ 736 milhões. No mundo, as crises internacionais custarão US$ 21 bilhões. Mas a crise sul-americana já supera o que custará Líbia, Afeganistão ou Iraque.  No total, 2,2 milhões de venezuelanos serão atendidos, além de outros 600 mil cidadãos dos países fronteiriços.

Ao Estado, Filippo Grandi, alto comissário da ONU para Refugiados, confirmou que está preocupado com o impacto que a falta de capacidade dos governos para lidar com a crise possa ter. "Estamos trabalhando com governos na região para lidar com a hostilidade e discriminação", disse. "Por isso é tão importante que esse apelo que vamos lançar. Precisamos lidar com isso de forma rápida para impedir que não se deteriore", completou.

Segundo ele, o pacote de ajuda terá um forte componente de desenvolvimento "para que a Venezuela não se torne um peso muito grande para os países da região". 

O Estado apurou, porém, que o detalhamento desse volume de dinheiro a cada um dos 16 países sul-americanos ainda está sendo finalizado. Mas a divisão do dinheiro respeitará o volume de refugiados em cada um dos locais. Por essa lógica, Colômbia e Peru serão os maiores beneficiados. Até o início de novembro, no Brasil, existiam 85 mil venezuelanos oficialmente registrados. 

Para fontes na entidade, o lançamento do plano na semana que vem marca por nova página na crise, que por anos foi rejeitada como tal por parte do governo venezuelano. Maduro teme que a caracterização da Venezuela como uma "crise humanitária" possa ser a porta que se busca para legitimar uma intervenção. 

Nesta terça-feira 4, foram os europeus que se apressaram em anunciar um cheque inicial de 20 milhões de europeus para lidar com a crise sul-americana, além de um pacote de 35 milhões de euros já reservados para a região. 

"Nosso financiamento irá fortalecer os esforços de dar saúde e alimentos, além de abrigo e melhor qualidade de água", declarou Christos Stylianides, comissário para Assuntos Humanitários de Bruxelas. 

Abertura

A esperança da ONU, porém, é de que o pacote seja apenas o primeiro passo de uma operação mais ampla que possa também atender aos venezuelanos dentro do país. Por enquanto, apenas US$ 9,5 milhões foram autorizados para programas dentro da Venezuela. "Há uma vontade de aumentar nosso apoio e há um debate ocorrendo sobre isso", disse Mark Lowdock, chefe do Escritório de Assuntos Humanitários da ONU. "Essa é a primeira vez que incluímos a Venezuela em nossa resposta global. Há um entendimento compartilhado de que mais ajuda da ONU nesses tipos de áreas seria uma coisa muito útil para reduzir o sofrimento das pessoas dentro da Venezuela", disse. 

"O que nós acertamos com o governo da Venezuela é que nós devemos fortalecer nosso trabalho de colaboração e apoio, por exemplo, nas áreas de serviços de saúde e nutrição", disse ele. "Estamos prontos para aumentar o apoio se houver um acordo", completou. 

 

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