ONU pede aos EUA e à Europa provas contra Assad

Organização confirma uso de 'substância' em ataque, mas rechaça ação militar à revelia do Conselho de Segurança

Jamil Chade, Correspondente - O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2013 | 02h02

GENEBRA - A ONU confirmou pela primeira vez oficialmente, ontem, que "uma substância" teria sido usada no ataque do dia 21 de agosto num subúrbio de Damasco, na Síria, matando centenas de pessoas, mas se recusa a aceitar que uma intervenção militar estrangeira seja a solução e alerta: qualquer ação internacional na Síria tem de ser aprovada pelo Conselho de Segurança.

Enquanto seus inspetores continuam a examinar as áreas supostamente atingidas por armas químicas, a ONU pede à Europa e aos EUA que entreguem à organização as provas que alegam ter contra o regime de Bashar Assad para que possam ser avaliadas antes de qualquer ação bélica.

"Eles dizem que vão nos mostrar as provas. Até agora isso não foi feito. Estamos interessados em ver o que eles têm", disse Lakhdar Brahimi, enviado das Nações Unidas para a Síria. "Vamos aguardar para ver o que os fatos nos dizem."

Sobre o que ocorreu no dia 21 de agosto, Brahimi limitou-se a dizer: "Parece que algum tipo de substância foi usada e matou muita gente. Centenas. Alguns falam mais de mil." Sem detalhar sobre que tipo de substância, os inspetores da ONU teriam encontrado algo nas "muitas amostras" colhidas no segundo dia de visita, ontem, aos locais supostamente atingidos pelo ataque.

"A Síria é agora a crise mais séria que desafia a comunidade internacional e o ataque serve de lição aos governos, que precisam se apressar para encontrar uma solução política", alertou.

Brahimi, porém, insiste que um ataque contra a Síria, como vem sendo anunciado por americanos e europeus, não será a solução. "Por princípio, sou contra uma intervenção. O que precisamos é de uma solução política".

Além de criticar uma intervenção, Brahimi deixa claro que uma ação como a que americanos e europeus estão estudando seria uma violação das leis internacionais. "A lei internacional é clara. Uma ação militar precisa passar pelo Conselho de Segurança da ONU."

Nos últimos dias, Washington, Paris e Londres vêm dando sinais de que estariam dispostos a agir de forma unilateral.

Brahimi, que ocupa o cargo há um ano, admite que todos os dias acorda pensando em pedir demissão de seu posto de mediador. "Sei que o presidente Obama não gostaria de puxar o gatilho. O que eles vão decidir eu não sei."

O mediador insiste que uma negociação de paz seria a melhor saída para pôr fim ao conflito na Síria. Brahimi, no entanto, não deixou de criticar o Conselho de Segurança da ONU por não ter agido antes. "Existem 100 mil mortos e eu não deixo de dizer que é um escândalo. O Conselho ficou paralisado por dois anos. Eles se orgulham em dizer que são responsáveis pela paz e segurança no mundo. Mas, na maior crise, não fazem nada. Não precisava ter esperado um agente químico para se interessar pela Síria."

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