ONU pede fim de matanças a facções e pressiona rebeldes a poupar Kadafi

Ações de insurgentes e partidários do ainda foragido líder líbio convertem Trípoli em cemitério a céu aberto Nações Unidas estudam envio de missão internacional à Líbia Embaixador em Brasília decide abandonar ditador e reconhece Conselho de Transição

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

Em meio a uma crescente onda de execuções atribuídas tanto a rebeldes quanto às forças ainda leais ao ditador Muamar Kadafi, a ONU fez ontem um apelo para que a vida do líder líbio seja poupada. O objetivo da ONU - que pretende enviar uma missão para ajudar a reconstruir o país (mais informações na página 18) - é que Kadafi seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional.

Na frente do portão principal de Bab al-Azizia, o quartel-general de Muamar Kadafi, há uma praça. Do outro lado, formando um triângulo, estão a base da Brigada 77, comandada por Muatassam, um dos filhos de Kadafi, e a entrada para o bairro de Abu Salim, último foco da resistência do regime onde fica a prisão de mesmo nome, para a qual o ditador mandava seus inimigos para serem trancafiados indefinidamente, torturados ou mortos.

O Estado contou 23 corpos, a maioria de negros, que os rebeldes afirmam ser de "mercenários africanos". Havia na praça um acampamento militar, primeira linha de defesa desse ponto nevrálgico do poder. Além das tendas verdes e beges, há duas brancas e uma ambulância com emblemas do Crescente Vermelho, o equivalente muçulmano da Cruz Vermelha. Os feridos não foram poupados, mas executados em suas macas.

Dois dos mortos estavam recebendo soro nas veias. Quatro foram fuzilados dentro de uma das tendas do Crescente Vermelho. Um morreu debruçado no piso da ambulância. A Cruz Vermelha fez um apelo aos rebeldes para que sigam as normas internacionais de guerra. A Anistia Internacional fez advertência semelhante, depois de receber relatórios de seus observadores na Líbia, de abusos tanto por parte dos rebeldes quanto das forças leais a Kadafi.

Um garoto de 15 anos, recrutado pelo regime e depois capturado pelos rebeldes num acampamento militar em Zawiya, contou: "Eles me fizeram ajoelhar no chão e pôr as mãos na cabeça. Então um deles mandou me levantar e me deu um tiro no joelho à queima roupa. Caí no chão e eles continuaram batendo com a culatra dos fuzis em todo o meu corpo e na cara."

Um ajudante de ordens do comandante da Brigada Trípoli, Mahdi Harati, disse ontem à noite ao Estado que os combatentes rebeldes tentariam hoje rechaçar as forças leais ao regime que estão mobilizadas em Salahuddin, ao sul de Abu Salim, na periferia de Trípoli. "Eles (os soldados pró-Kadafi) estão com peças de artilharia de 14,5 milímetros (antitanque) e será um combate pesado", disse o rebelde.

À noite, os disparos de artilharia e de fuzis-metralhadoras, ouvidos durante o dia, intensificaram-se em Trípoli.

Os rebeldes tomaram a mansão da filha de Kadafi, Aisha, no complexo de Bab al- Azizia. A luxuosa casa tinha dois andares, piscina coberta e sauna. Alguns rebeldes aproveitaram para descansar nos sofás enquanto outros cantavam pela casa. Após a invasão, crianças usaram a piscina enquanto moradoras de Trípoli saqueavam a decoração.

A capital amanheceu sem água. Em entrevista coletiva, à noite, o chefe do Conselho Militar de Trípoli, o comandante rebelde Abdel Hakim Bel Hag, admitiu que os combatentes não têm controle sobre as fontes de água que abastecem a cidade, situadas a cerca de 500 km ao sul, no Deserto do Saara, em redutos de Kadafi. As forças leais ao regime podem ter sabotado o fornecimento, admitiu Bel Hag. Num verão em que a temperatura se aproxima dos 40 graus, com os líbios já enfrentando as agruras do Ramadã, o mês sagrado muçulmano, em que têm de jejuar durante o dia, o corte de água pode deteriorar as condições de vida em Trípoli.

Falta também eletricidade. "Ficamos sabendo que a mesa de controle da eletricidade fica em Bab al-Azizia", disse ao Estado Tawfiq al-Jeraib, coordenador civil de operações. "Estamos tentando descobrir quem é o responsável por ela. Esse era um país governado por uma pessoa pelo telefone, e por seu filho. Não há estrutura de governo." Grande quantidade de tropas rebeldes concentrava-se ontem perto de Sirte, cidade natal e reduto de Kadafi, 400 km ao sul de Trípoli. Depois de intensos bombardeios da Otan, os rebeldes preparavam-se para invadir a cidade.

Advertência. A ONU alertou aos rebeldes que não aceitará o assassinato de Kadafi. A entidade comunicou à oposição ontem que quer que o líder líbio seja entregue ao Tribunal Penal Internacional, em Haia, para ser julgado e que o apelo para que ele seja capturado "vivo ou morto" não é a atitude que se espera de um regime democrático. No caso da Líbia, a esperança é de que os responsáveis pelos crimes sejam julgados. O apelo da ONU é para que todas as partes no conflito evitem revanches. Rupert Colville, porta-voz da ONU para Direitos Humanos, insistiu que o restabelecimento do estado de direito deve ser uma prioridade na Líbia. "Esse estado de direito deve ser válido para todos, inclusive Kadafi", disse. / COLABOROU JAMIL CHADE

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