ONU pode cortar ajuda se hospitais cobrarem haitianos

A Organização das Nações Unidas (ONU) advertiu que vai interromper imediatamente o envio de medicamentos caso descubra que hospitais haitianos estão cobrando os pacientes pelos serviços prestados. Logo após o catastrófico terremoto de 12 de janeiro, as autoridades decidiram que todos os cuidados médicos seriam gratuitos. Mais de 200 entidades internacionais enviaram grupos para ajudar as vítimas, além de milhões de dólares em medicamentos.

AE-AP, Agencia Estado

09 de fevereiro de 2010 | 17h48

Funcionários da ONU disseram à agência de notícias Associated Press que cerca de 12 hospitais - tanto públicos quanto privados - começaram a cobrar os medicamentos dos pacientes. Eles disseram que não tinham como fornecer os nomes dos hospitais, mas afirmaram que eles estão localizados em várias partes do país, incluindo Porto Príncipe.

"A quantidade de dinheiro enviada é enorme", disse Christophe Rerat, da Organização Pan-Americana da Saúde, a agência de saúde da ONU na região. Ele disse que cerca de US$ 1 milhão em medicamentos foram enviados dos depósitos da ONU para hospitais haitianos apenas nas últimas três semanas.

Os hospitais não precisam cobrar dos pacientes para pagar seus funcionários porque o Ministério da Saúde do Haiti está usando o dinheiro de contribuições para pagar seus funcionários, disse Rerat. O Haiti conta com cerca de 90 hospitais, incluindo instituições públicas e privadas, além de hospitais de campanha montados após o terremoto.

Um integrante da comissão governamental criada para lidar com a crise humanitária, doutor Jean Hugues Henry, disse não saber da existência de hospitais que estejam cobrando por serviços ou medicamentos. Funcionários da ONU disseram que cortarão imediatamente o fornecimento de recursos para qualquer hospital que cobrar pelos serviços prestados. Mas a ONU estuda manter o fornecimento para organizações não-governamentais que trabalhem em hospitais privados se esses grupos assegurarem que nenhum paciente receberá cobrança pelo atendimento médico.

A embaixadora da boa vontade da ONU, a atriz Angelina Jolie, se dirige ao Haiti, onde deve se encontrar com as vítimas no terremoto, depois de ter conversado com sobreviventes na vizinha República Dominicana.

Estação das chuvas

Funcionários da ONU e sobreviventes do terremoto estão de olho no céu. Não houve chuvas significativas desde o desastre, mas todos sabem que essa situação não vai perdurar. A estação das chuvas no Haiti costuma provocar mortes, mesmo em anos bons. Agora, na devastada capital, as chuvas de primavera ameaçam provocar deslizamentos de terra e trazer problemas de saúde para os campos de refugiados onde mais de 500 mil pessoas vivem.

A chuva já cai em algumas partes do país, mas na destruída capital, onde a maior parte dos danos foi registrada, ainda não choveu, uma raridade nesta época do ano, quando as chuvas no período da tarde são comuns. As chuvas fortes devem começar até o final do mês e a estação dos furacões começa em junho.

Trabalhadores humanitários correm para retirar as vítimas das planícies que podem sofrer inundações e colocá-las em barracas. Eles também tentam limpar as toneladas de escombros das ravinas, canais e leitos de rios para evitar que a água da chuva não transforme os acampamentos em locais de dispersão de doenças.

"Haverá preocupações com a saúde", disse o engenheiro Mario Nicoleau, do escritório da Agência Internacional para o Desenvolvimento no Haiti. "Os riscos serão enormes."

O governo haitiano disse que precisa de mais dinheiro e barracas se as pessoas tiverem de ser transferidas. "Vamos ter um grande problema quando a estação das chuvas começar", disse o ministro do Interior Paul Antoine Bien-Aime. "Não temos os US$ 60 milhões para compara 100 mil barracas."

Furacões, tempestades tropicais e enchentes são uma ameaça constante no Haiti. Em 2004, cerca de 3 mil pessoas morreram na cidade de Gonaives, norte do país, após a tempestade tropical Jeanne. Após a tempestade, foram arrecadados US$ 70 milhões em ajuda, mas apenas uma pequena parte desse dinheiro foi usado no controle de enchentes. Gonaives sofreu outra enchente em 2008, que matou cerca de 800 pessoas.

Antes do terremoto, grupos humanitários já estavam tentando controlar os riscos em áreas que podem sofrer enchentes construindo muros para estabilizar morros, instalando sistemas de drenagem e trabalhando com agricultores para que eles escolhessem plantações que ajudassem a conter a água. Mas a maior parte desse trabalho foi suspenso após o terremoto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.