ONU prepara entrada no campo de refugiados de Jenin

Agentes humanitários filiados à ONU preparam-se para lidar com um devastado campo de refugiados de Jenin, onde os confrontos entre israelenses e palestinos foram os mais intensos em mais de um ano e meio de conflito, informaram nesta sexta-feira funcionários da entidade."Estamos nos preparando para o momento no qual será possível entrar e estamos muito, mas muito preocupados mesmo com o que deveremos encontrar por lá", disse o porta-voz da agência de trabalhos humanitários da ONU, René Aquarone, que zela pelos palestinos amontoados nos campos de refugiados e é conhecida por sua sigla em inglês, UNRWA.De acordo com Aquarone, funcionários da UNRWA puderam entrar em partes das cidades de Jenin e Nablus, mas não tiveram acesso aos campos de refugiados localizados nos arredores. No campo de Jenin, por exemplo, 23 soldados israelenses e um número ainda desconhecido de palestinos morreram em oito dias de confrontos.Jornalistas visitaram o campo na quinta-feira e constataram que houve uma grande devastação, mas não havia corpos espalhados pelas ruas. Alguns homens palestinos que andavam sobre os escombros do que restou das construções locais disseram ter ouvido rumores de que os cadáveres haviam sido enterrados em valas comuns, mas não sabiam dizer onde."O acesso das equipes de ajuda humanitária está particularmente difícil", disse Aquarone. "Durante a última semana, não foi possível socorrer os feridos nem recuperar os corpos dos mortos. Esta é uma situação muito rara."Outros funcionários da ONU comentaram que estavam organizando estoques de ajuda humanitária para distribuir aos palestinos quando a ofensiva israelense foi ampliada.O Programa Mundial de Alimentação enviará 40 toneladas de biscoitos vitaminados da Itália para Tel Aviv a partir deste sábado informou a porta-voz Christiane Berthiaume.Porém, segundo Berthiaume, o grande problema é conseguir uma oportunidade para distribuir os suprimentos entre os palestinos necessitados.Wivina Belmonte, porta-voz da Unicef, resumiu: "Não é uma questão de suprimentos. Os suprimentos existem e estão lá. O problema é o acesso a eles e uma questão de ter acesso por tempo suficiente para que possamos distribuir os suprimentos que estamos levando e sair do local."Aquarone afirmou que a UNRWA está particularmente preocupada com a prática adotada pelos soldados israelenses de abrirem fogo contra ambulâncias e lembrou que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha já registrou mais de 180 incidentes deste tipo."Falamos sobre ambulâncias que receberam autorização das autoridades israelenses", declarou Aquarone. "Estas ambulâncias autorizadas foram baleadas. E não estamos falando sobre balas perdidas." Forças israelenses acusam os palestinos de transportarem armas em ambulâncias.Aquarone denunciou um incidente ocorrido na quinta-feira. "Uma ambulância chegou a um posto de checagem. Uma pessoa estava em um tanque e gritou com um megafone: ´Saia do carro!´ Quando o motorista da ambulância deixou o veículo, o tanque passou por cima do carro."Numa outra entrevista coletiva, o diretor-geral do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, Paul Grossrieder, revelou-se preocupado com as "humilhações" às quais vêm sendo submetidos funcionários da entidade em Israel. "Como um delegado meu me contou, passou a ser normal quando você tenta conversar com um soldado israelense e a resposta dele é um tiro", acusou.De acordo com Grossrieder, em diversas ocasiões seus subordinados foram deitados na lama com a mão atrás da cabeça. Ontem, em Jenin, soldados israelenses obrigaram dois funcionários da Cruz Vermelha a ficarem nus.A Convenção de Genebra garante aos funcionários da Cruz Vermelha condições para trabalhar de forma neutra com ajuda humanitária para proteger vítimas nos dois lados dos conflitos."Não temos nada contra os soldados israelenses revistarem nossos carros e ambulâncias. Faz parte de uma guerra", ponderou. "Em contrapartida, é totalmente inaceitável que ocorram humilhações com estas."Grossrieder também falou sobre as acusações israelenses de que ambulâncias da Crescente Vermelho palestina transportavam armas e bombas. Ele disse suspeitar que, na maior parte dos casos, não se tratava de ambulâncias da entidade, que representa a Cruz Vermelha nos países islâmicos, mas de veículos pintados por extremistas para imitar ambulâncias e atravessar os postos de checagem, apesar de os indivíduos nada terem a ver com a Sociedade Crescente Vermelho.Grossrieder lembrou que no primeiro caso de uso inadequado das ambulâncias, militares israelenses produziram um vídeo no qual apareciam o motorista do veículo e os explosivos retirados dele. De acordo com ele, a Cruz Vermelha iniciou um inquérito separado.O secretário-geral da Federação Internacional da Cruz Vermelha e da Sociedade Crescente Vermelho, Didier Cherpitel, disse achar estranho o fato de o vídeo ter sido gravado apenas no quarto posto de checagem que inspecionou a ambulância. Ele considera intrigante o fato de os explosivos não terem sido detectados os três primeiros postos de checagem, que sempre revistam rigorosamente os veículos suspeitos.

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