ONU prevê crise de refugiados em 2012

Em meio a crises no mundo árabe, comunidade internacional oferece menos vagas do que o necessário e 90 mil não terão para onde ir

Guilherme Russo, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

A primavera árabe tem aumentado o número de refugiados no Norte da África e no Oriente Médio. A maioria consegue abrigo em países vizinhos. Mas muitos fugitivos, por não se adaptar e não poder retornar à terra natal, acabam encaminhados a outras nações. São os "reassentados". A ONU estima que, em 2012, 173 mil pessoas precisarão dessa ajuda - 90 mil além das vagas oferecidas pela comunidade internacional.

De acordo com o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), entre 3 a 5 anos, 780 mil pessoas (até 156 mil por ano) enfrentarão essa situação - e o mundo oferece uma média de 80 mil vagas de reassentamento anualmente.

No início do mês, durante reunião em Genebra, o Acnur e ONGs que tentam solucionar o problema lançaram um apelo para que os governos ofereçam mais vagas para evitar que o déficit se concretize.

Em 2009, 85 mil refugiados obtiveram essa ajuda. No ano passado, porém, foram 73 mil - 14,12% a menos. "Em 2011, o volume de retorno dos refugiados aos países de origem tem diminuído. Isso significa que mais pessoas nessa situação enfrentam problemas de integração nos países vizinhos. Precisamos de um maior envolvimento das nações na questão dos reassentados", disse ao Estado Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Acnur no Brasil.

A maioria dos refugiados consegue se abrigar em países vizinhos, mas muitos, por preconceito da população local ou por falta de possibilidade de adaptação social, política ou econômica, apelam para a ajuda oferecida pela ONU e por ONGs.

Entretanto, Godinho ressalta que, ao oferecer as vagas de reassentamento, muitas nações impõem processos burocráticos e controles de segurança que acabam por dificultar, atrasar e até impedir o deslocamento desses refugiados para locais seguros.

"Há nações que enviam missões para realizar entrevistas com essas pessoas mais vulneráveis, pois têm essa prerrogativa. O que é parecido com qualquer processo para a aceitação de refugiados. Acabamos dependentes da dinâmica interna dessas nações. Isso traz morosidade ao processo e muita gente fica sem ter para onde ir", explicou. "Precisamos de um maior envolvimento da comunidade internacional."

Riscos. Na abertura da reunião em Genebra, o diretor do serviço de reassentamento do organismo, Wei-Meng Lim-Kabba, afirmou que "se os Estados não oferecerem mais vagas, quase 100 mil refugiados vulneráveis, que precisam ser reassentados, permanecerão sem futuro (também) este ano".

Em 2010, 22 países receberam pessoas nessa situação. O principal foco da atuação do Acnur em 2011 está no Egito e na Tunísia, e em acampamentos que recebem os refugiados do conflito em andamento na Líbia e da seca na Somália.

Atualmente, 80% dos 43,7 milhões de refugiados do mundo conseguem abrigo nos países em desenvolvimento, segundo os dados do Acnur. "Isso contraria o mito de que os países ricos são os que mais recebem essas pessoas", afirmou Godinho. Por causa do fluxo causado pelos confrontos no Afeganistão nos últimos anos, o vizinho Paquistão é o país que mais abriga refugiados no mundo: 1,9 milhão, segundo dados do fim de 2010.

Juntamente com os iraquianos perseguidos após o fim do regime de Saddam Hussein, muitos afegãos fugiram para o Irã - país que ocupa o 2.º lugar na lista dos que mais abrigam refugiados, com 1,07 milhão.

Ranking. Também em razão da situação no Iraque e em outras nações do Oriente Médio, a Síria abrigava mais de 1 milhão de refugiados antes da revolta contra o regime do presidente Bashar Assad.

Com quase 600 mil refugiados, a Alemanha é um dos dois países da Europa que figuram no ranking das dez nações que mais abrigam pessoas nessa situação no mundo - aparece em 4.º lugar. Na 9.ª posição vêm os EUA, com 264 mil. Em 10.º, a Grã-Bretanha, com 238 mil.

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