Carl de Souza/AFP
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ONU quer tropas estrangeiras na Líbia pós-Kadafi

Plano prevê permanência de tropas da Otan e eleições em 2012; rebeldes distribuem gasolina e bancos reabrem parcialmente

Jamil Chade CORRESPONDENTE / GENEBRA e Lourival Sant?Anna ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não encerrará tão cedo sua missão na Líbia, mesmo com a queda de Muamar Kadafi. Esse é o plano elaborado pela ONU para a reconstrução do país, que prevê eleições para um novo Parlamento no início de 2012.

O Estado obteve uma cópia do rascunho do documento de dez páginas com a estratégia para a Líbia pós-Kadafi. O plano será debatido amanhã por líderes mundiais em Paris. A ONU utilizará o modelo que aplicou na gestão civil do Timor Leste, com uma administração de 60 pessoas comandando a operação na capital.

As Nações Unidas entendem que a Otan deve continuar na Líbia, uma alternativa vista com reservas por China, Rússia e Brasil. "A estabilização de Trípoli pós-Kadafi certamente estará além da capacidade da ONU", diz a estratégia. "O mandato implementado pela Otan não termina com a queda do governo."

A resolução aprovada em março no Conselho de Segurança da ONU rejeita qualquer de "ocupação" na Líbia. Para driblar o texto, será preciso garantir que Rússia e China não usem seu poder de veto, além do apoio de 9 dos 15 integrantes do órgão.

Outro ponto fundamental são as eleições. Um governo interino terá de ser formado em 30 dias. Passados 240 dias da "proclamação da libertação", eleições para o Parlamento devem ocorrer. A ONU determinou que o Legislativo tenha 200 deputados e poder constituinte.

No governo interino, todos os segmentos políticos devem ser convidados a participar, mesmo os que fizeram parte do regime. Acusados de crimes contra a humanidade não podem integrar a coalizão. A ONU sugere ainda que FMI, Banco Mundial e União Europeia deem viabilidade econômica ao novo regime.

Festa na capital. Nas duas últimas noites, as explosões de bombas lançadas pelos aviões da Otan contra as forças de Kadafi deram lugar a um carnaval na antiga Praça Verde, hoje Praça dos Mártires.

A celebração coincide com o Eid al-Fitr, o fim do Ramadã, o mês do jejum diurno. "Este é o Eid al-Fitr da independência", discursou ontem à noite Ali Tarhouni, o vice-primeiro-ministro do governo de transição. A multidão cantava ao som de pandeiros e gritava: "Cadê você, Shufashufu?",chamando Kadafi pelo apelido, que significa "descabelado".

Com a temperatura chegando a 35 graus à sombra, moradores de Trípoli fizeram fila em agências de bancos, parcialmente abertas pela primeira vez desde a quinta-feira retrasada. Havia urgência de retirar dinheiro para a festa. Em toda a região, o Eid al-Fitr foi celebrado ontem. Na Líbia, o clero adiou-o para hoje, para dar tempo para os bancos reabrirem. A festa é uma das duas mais importantes do calendário muçulmano, ao lado do sacrifício do cordeiro.

As filas nos bancos foram engrossadas por um rumor de que os rebeldes distribuiriam 250 dinares (US$ 167) por pessoa. Era mentira. Outra fila, a dos postos de gasolina, tinha um respaldo real na generosidade do governo interino: somente ontem, os motoristas puderam encher o tanque de graça, depois de uma semana tendo de pagar até US$ 5 por litro. Os postos são privados, mas a distribuidora é estatal. A partir de hoje, os postos voltam a cobrar o irrisório preço de antes: 0,15 dinar (US$ 0,10) por litro.

Parte do comércio permanece fechada. Nos açougues e mercearias da cidade não havia filas, talvez porque muitos não conseguiram sacar dinheiro. Além disso, muitos trabalhadores não recebem há três meses ou mais.

Pouco se sabia sobre como Trípoli tinha vivido esses últimos meses. Houve confrontos com membros das brigadas leais a Kadafi nos postos de gasolina, porque esses milicianos controlavam as filas e vendiam lugares nela por 50 dinares (US$ 33). Vários motoristas foram mortos.

Falta água em Trípoli e os blecautes são frequentes. Os celulares funcionam precariamente. A rede telefônica foi mantida no norte e no sul, mas a comunicação entre as duas partes do país foi cortada por Kadafi. O governo provisório diz que os aeroportos de Benghazi e Misrata foram reabertos para voos com medicamentos e alimentos. O de Trípoli segue fechado. Voos comerciais só serão retomados quando todo o país estiver sob o controle do CNT.

Moradores de Trípoli falam em voltar ao trabalho no sábado, depois de emendar o Eid al-Fitr com a sexta-feira, o descanso semanal muçulmano. Para isso, será necessário remover os postos de controles dos combatentes rebeldes das ruas de Trípoli. A cada 100 ou 200 metros, os carros são parados.

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