Alessandro Di Meo/EFE
Alessandro Di Meo/EFE

ONU questiona plano da Europa para frear o fluxo de imigração

Para entidade, foco não pode ser apenas atacar traficantes; 30 mil pessoas podem morrer ao tentar cruzar o Mediterrâneo em 2015

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

21 de abril de 2015 | 07h08

GENEBRA - A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que o plano anunciado pela Europa para frear as mortes de imigrantes pelo Mar Mediterrâneo precisa ser ampliado e o foco não pode ser apenas o de atacar traficantes que organizam as travessias, como defenderam líderes do bloco europeu nos últimos dias. Hoje, um a cada 18 pessoas que tenta cruzar o mar não sobrevive à viagem. 

Em entrevista coletiva em Genebra, o responsável pela Divisão de Proteção do Alto Comissariado da ONU para Refugiados, Volker Turk, apontou que a tragédia no fim de semana que matou mais de 800 pessoas foi um "sinal de alerta" para o mundo. 

Mas ele deixou claro que o plano europeu, anunciado nesta segunda-feira, 20, após uma reunião de emergência entre ministros, não é suficiente. O plano de dez pontos prevê ações militares para combater traficantes, o reforço limitado de uma operação de resgate e apenas poucos lugares para refugiados em projetos dentro da Europa.

Para a ONU, o foco do plano precisa ser redefinido para dar maior atenção aos imigrantes. "Damos boas vindas à iniciativa. Mas a proteção de pessoas e de asilos precisa ser uma prioridade", alertou Turk. "Diante das crises que existem às portas da Europa, a realidade é que o fluxo de pessoas não vai desaparecer", alertou.  "A liderança europeia precisa dar uma resposta a isso."  

A ONU admite que o tráfico é um problema. Mas alerta que não será combatendo os grupos criminosos que organizam as travessias que vai acabar com o fluxo. "Os fatores que puxam essas pessoas a fazer a travessia são maiores", alertou o representante da ONU. 

Na quinta-feira, 16, líderes europeus vão se reunir para tentar definir uma estratégia para lidar com o fenômeno. Nesta terça-feira, 21, a ONU fez um apelo para que a cúpula de uma atenção adequada aos imigrantes. "Medidas apropriadas precisam ser tomadas para proteger as pessoas", disse Turk.  

Asilo. Um dos aspectos mais criticados pela ONU é o fato de que poucos lugares foram anunciados pela Europa para reassentar refugiados. No total, o bloco indicou que vai aceitar 5 mil pessoas. "Precisamos de mais lugares", admitiu Turk.

Segundo ele, cerca de 40% dos tripulantes dos barcos que fazem a travessia são de pessoas que precisam de proteção, como sírios, refugiados da Somália ou Eritreia. "Precisamos garantir que existam canais para que essas pessoas sejam identificadas e protegidas", disse.

No total, a ONU considera que o barco que afundou no fim de semana continha 850 pessoas, incluindo 350 imigrantes da Eritreia, Síria, Gâmbia, Etiópia e Somália. 

"Apenas 28 sobreviveram e consideramos que o número de fatalidades é superior a 800, o que faz dele o pior acidente ja registrado", indicou Adrian Edwards, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados.

No total, o número de mortos no ano soma 1,7 mil pessoas e abril passou a ser o mês mais mortal já registrado, com 1,3 mil fatalidades. 

Previsão. Em todo ano de 2014, 3,4 mil pessoas morreram na mesma travessia. "Podemos passar essa marca em questão de semanas", alertou a ONU. 

Se o atual ritmo de aumento de mortes entre imigrantes no Mar Mediterrâneo continuar como nos primeiros três meses do ano, mais de 30 mil pessoas poderão morrer em 2015 tentando cruzar o mar em direção à Europa. O alerta é da Organização Internacional de Migrações (OIM), que fez um apelo para que a Europa crie mecanismos para resgatar essas pessoas.

"O número de mortes registradas até agora já é mais de dez vezes o que ocorreu no mesmo período de 2014. Se essa tendência continuar, ao final do ano teremos 30 mil vítimas", alertou Joel Millman, porta-voz da OIM. Entre 2000 e 2014, 22 mil pessoas morreram na travessia. 

No total, a ONU apontou que 36 mil imigrantes cruzaram o mar desde o início do ano. Em 2014, foram 220 mil pessoas cruzando o Mediterrâneo e 3,5 mil mortes. 

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