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ONU retoma diálogo de paz sobre a Síria

Enviado se reunirá com as partes envolvidas no conflito para saber o que cada grupo estaria disposto a aceitar em meio ao avanço do EI

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2015 | 02h03

As Nações Unidas vão reiniciar as negociações de paz para tentar encontrar uma solução política para a guerra na Síria. A partir de maio, o enviado especial da ONU, Staffan de Mistura, realizará consultas em Genebra com "todas as partes envolvidas" no conflito. A meta é tentar costurar uma aproximação, um ano após o fracasso da última tentativa diplomática. 

A iniciativa ocorre no momento em que o Estado Islâmico avança para Damasco. As negociações foram propostas pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, depois de consultar os principais governos envolvidos.

Num primeiro momento, Mistura chamará cada um dos grupos para conversar e tentar mapear o que cada um deles estaria disposto a aceitar. O enviado é o terceiro a ocupar o cargo. Em quatro anos, propostas similares feitas pelos mediadores Kofi Annan e Lakhdar Brahimi fracassaram.

Apesar de inúmeras reuniões - públicas e secretas - o único documento produzido até hoje foi o "Comunicado de Genebra" de junho de 2012. Mistura pretende partir da mesma base. "Trata-se de uma consulta com o objetivo de pôr o Comunicado de Genebra em prática", declarou ontem Ahmad Fauzi, porta-voz da ONU.

O documento prevê a interrupção da guerra para que ocorra uma transição política, feita a partir de um novo órgão que reuniria todas as facções. Mas a questão da participação do presidente Bashar Assad não foi resolvida e o processo acabou fracassando. Para Damasco e Moscou, não havia dúvidas de que o processo precisaria incluir Assad. Naquele momento, a oposição e os americanos rejeitavam a opção. Hoje, diante do avanço do EI, diplomatas consideram que há espaço para considerar o envolvimento direto de Assad nas conversações.

Mistura também pediu a Moscou que pressione Assad a buscar uma solução, uma declaração que no Kremlin soou como uma cobrança. "Moscou tem influência sobre Damasco e precisa agir", declarou o enviado.

A última vez que as partes se reuniram foi no início de 2014, no que ficou conhecido como "Genebra 2". Mas Brahimi, que havia substituído Annan, não conseguiu chegar a um acordo sobre quais temas deveriam ser tratados com prioridade.

Mas numa guerra que entra em seu quinto ano e já matou 220 mil pessoas, as acusações revelam que Mistura terá sérias dificuldades. Ontem, a entidade Human Right Watch denunciou que forças do governo usaram novamente armas químicas. O ataque teria ocorrido na segunda quinzena de março, em Idlib, e afetado 206 pessoas.

Yarmuk. O governo sírio informou ontem que apenas 6 mil pessoas permanecem no campo de refugiados palestinos de Yarmuk, na periferia de Damasco, depois que o grupo jihadista Estado Islâmico lançou uma ofensiva contra o local para tomá-lo de um grupo de insurgentes rival.

A ONU e funcionários sírios disseram que 18 mil pessoas moravam em Yarmuk quando o EI iniciou os ataques no começo do mês. "O número dos que permanecem no campo caiu para menos de 6 mil e o êxodo continua", disse o ministro da Informação sírio, Omran Zoabi, à mídia estatal.

Antes do início da guerra na Síria, em 2011, o campo abrigava 160 mil palestinos, refugiados da guerra que se seguiu à fundação de Israel, em 1948, e seus descendentes. O campo voltou a chamar a atenção mundial este mês quando o EI iniciou sua ofensiva, piorando as condições de seus moradores, que já estavam cercados pelas forças do governo desde 2013 e passavam fome.

O chefe da agência da ONU para refugiados palestinos, Pierre Krahenbuhl, disse à imprensa após uma visita a Damasco que o trabalho de ajuda tem como prioridade socorrer os que fugiram do campo. "Temos de nos adaptar às realidades que encontramos e estamos, principalmente, ajudando as pessoas que partiram", disse.

O secretário-geral da ONU disse na semana passada que os moradores de Yarmuk enfrentam uma "espada de dois gumes - elementos armados dentro do campo e forças do governo fora".

Apesar de a Síria ter permitido o acesso ao campo de ajuda humanitária, a ONU pressiona as autoridades a permitir o envio de mais ajuda, disse Krahenbuhl.

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