US Department of State, Humanitarian Information Unit, NextView License (DigitalGlobe)
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ONU revela extensão de dano a patrimônio histórico na Síria

Imagens conseguidas via satélite mostram locais de interesse mundial destruídos e indícios de escavações ilegais

Jamil Chade, de Genebra / Correspondente, O Estado de S. Paulo

23 de dezembro de 2014 | 06h00

Um levantamento feito pela ONU a partir de imagens de satélites revela pela primeira vez a dimensão real da destruição de locais na Síria considerados verdadeiros tesouros históricos. O estudo também constata que o tráfico de antiguidades se transformou numa das maiores fontes de recursos para os grupos extremistas.

Agora, mediadores da ONU querem usar essa tragédia cultural como argumento para voltar a negociar um cessar-fogo na guerra civil que já deixou mais de 200 mil mortos e 3 milhões de refugiados.



O novo estudo que será publicado hoje e foi obtido pelo Estado revela que 290 sítios arqueológicos estão seriamente ameaçados. Desses, 24 já foram totalmente destruídos. Outros 104 estão muito afetados.

As imagens foram feitas antes e depois de bombardeios, usando satélites comerciais ou meteorológicos. A Síria concentra seis locais considerados como patrimônio da humanidade pela Unesco. Lugares como a sinagoga mais antiga do mundo e obras como a representação mais antiga de Cristo estão ameaçados. A maior coleção de mosaicos do Oriente Médio também pode não sobreviver.

Segundo o arqueólogo sírio Salam Al Kuntar, entre os locais mais ameaçados está Crac des Chevaliers, um forte construído no século XI por cavaleiros que tomavam o caminho do Oriente Médio nas Cruzadas. Parte da construção pode desabar. Veja vídeo sobre o local.

Outro exemplo é Dura Europos, hoje controlado pelo Estado Islâmico (EI). O local era uma espécie de entreposto de caravanas de todo o mundo e acabou se transformando em um símbolo de uma sociedade cosmopolita. É ali que está a sinagoga mais antiga do mundo.

“Esses monumentos que sobreviveram até o século 21 capturam a imagem da história”, disse o arqueólogo. “São locais que dão identidade às populações. Essa destruição será uma grande perda para toda a humanidade e para uma região que era o ponto de encontro entre Ocidente e Oriente.”

No início de dezembro, a Unesco já havia lançado um apelo urgente pela proteção desses locais. Um dos mais afetados era a cidade de Alepo, com suas mesquitas, ruínas medievais e um dos mercados mais preservados do mundo.

A entidade tentou negociar um acordo pelo qual as partes envolvidas no conflito se comprometeriam a não destruir esses patrimônios. “São locais críticos para todos os sírios. Portanto, se podemos parar a guerra ali, também podemos em outras partes do país”, disse Maamoun Abdulkarim, diretor-geral dos museus da Síria.

Ao Estado, mediadores da ONU afirmaram que a estratégia de impedir que prédios antigos sejam destruídos não é apenas para proteger a cultura, mas uma forma de romper o ciclo de violência e tentar ganhar apoio para um cessar-fogo.

“Se conseguirmos identificar locais culturais e universalmente reconhecidos como tendo valor histórico, teremos um ponto de entrada para falar de cessar-fogo”, avaliou Giovanni Boccardi, chefe do departamento de emergências da Unesco.

Nas últimas semanas, as fotos publicadas hoje foram mostradas a representantes tanto do governo sírio quanto dos rebeldes, insistindo que eles devem chegar a um acordo. Bairros antigos em Homs e Alepo estavam entre as prioridades.

Rapidamente, o presidente sírio Bashar Assad demonstrou interesse pelo projeto, mas rebeldes temem que a indicação sejam apenas mais uma tática de Damasco para ganhar apoio.

A própria Unesco admite que o esforço é inédito e que ninguém pode dizer se vai funcionar. “O que estamos vendo é que outras iniciativas não funcionaram. Temos de tentar tudo que esteja em nosso poder”, declarou Boccardi.

Quando não são as bombas que destroem o que séculos não conseguiram derrubar, são contrabandistas que atuam na região que ameaçam. Alguns sítios arqueológicos estão, hoje, em regiões controladas pelo EI que, em troca de dinheiro, permite que contrabandistas entrem e levem consigo objetos de valor inestimável.

Segundo a Unesco, esse contrabando poderia garantir aos extremistas uma renda de US$ 7 bilhões, dinheiro suficiente para mantê-los por anos com uma capacidade bélica elevada.

As imagens mostram que as ruínas de Palmyra e Ma’arat Na’aman têm sinais de escavações ilícitas. “É catastrófico”, declarou Edouard Planche, chefe do departamento da Unesco contra o tráfico de antiguidades.

A Unesco já identificou que, desde a Primavera Árabe, redes do crime organizado internacional têm se valido da instabilidade e da guerra para pilhar acervos culturais desses países. Na Síria, porém, isso também significa renda para extremistas.

Neste ano, o Conselho Internacional de Museus publicou uma “lista vermelha” de bens que precisam ser monitorados por comerciantes e intermediários que tenham contato com bens vindos do Oriente Médio.

“Se a comunidade internacional e a ONU querem parar o financiamento de terroristas, precisam de forma urgente lidar com o tráfico de objetos de arte”, avalia a diretora da Unesco, Irina Bokova. 

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