ONU se contradiz sobre uso de arma química na Síria

Paulo Sérgio Pinheiro desmente alegação de colega de que rebeldes utilizaram armamento

Jamil Chade, correspondente em Genebra ,

06 de maio de 2013 | 18h40

GENEBRA - O brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito da ONU sobre a crise na Síria, desmentiu nesta segunda-feira, 6, a versão de que grupos rebeldes em luta contra o regime de Bashar Assad usaram armas químicas. A denuncia havia sido feita no fim de semana por outra integrante de alto escalão da comissão, a suíça Carla del Ponte.

A discórdia dentro da ONU veio à tona um dia depois de Israel ter voltado a atacar o território sírio com o suposto objetivo de impedir que armas iranianas cheguem ao grupo xiita libanês Hezbollah. O regime Assad ameaçou retaliar "com todos os meios à disposição" o bombardeio israelense.

A tensão na região fez a cotação do barril de petróleo ultrapassar US$ 105. Autoridades israelenses negaram que o país está à beira da guerra ou mesmo disposto a interferir na disputa interna síria.

"Dispomos de testemunhos sobre a utilização de armas químicas, em particular do gás sarin. Não por parte do regime sírio, mas dos opositores", disse Carla em entrevista a uma rádio suíça. Segundo ela, "as investigações ainda estão longe de serem concluídas" e, portanto, ainda não se poderia afirmar se Assad usou ou não o arsenal proibido.

A declaração de Carla pegou a ONU inteiramente de surpresa. Nesta tarde, Pinheiro emitiu uma nota para esclarecer que a comissão de inquérito "não chegou a resultados conclusivos sobre o uso de armas químicas na Síria por nenhum dos grupos em conflito". "Como resultado, a comissão não está em posição de fazer nenhum comentário adicional sobre as alegações neste momento", sublinhou o brasileiro.

Pinheiro limitou-se a insistir que governo e oposição devem ter em mente que o uso de armas químicas é "proibido em todas as circunstâncias". O Exército Sírio Livre, que reúne grupos guerrilheiros em luta contra Assad, também rejeitou a acusação de Carla, qualificando a fala da jurista suíça de "meras especulações".

Após desferir o segundo ataque contra a Síria em 48 horas, Israel tentou acalmar as tensões, indicando que seu objetivo é impedir o fortalecimento do Hezbollah, e não entrar na disputa entre rebeldes e o regime Assad. Mas, publicamente, nenhuma autoridade israelense admitiu que foi o país que desferiu o ataque.

"Os ventos da guerra não estão soprando", disse Yair Golan, comandante das forças israelenses na fronteira com o Líbano e a Síria. "Vocês veem alguma tensão? Não há tensão. Pareço tenso para você", afirmou o militar a jornalistas, enquanto fazia cooper com soldados.

Em um sinal de que são reduzidos os temores de uma retaliação síria, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, chegou à China para uma visita oficial. Pequim, que tenta barrar na ONU qualquer ação direta contra Damasco, exortou os lados em conflito a evitar uma escalada nas tensões, embora não tenha mencionado explicitamente Israel.

A Rússia, principal aliada de Assad entre as grandes potências, disse que o bombardeio israelense "causa especial preocupação". O chanceler russo, Sergei Lavrov, e o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, se encontrarão nesta terça-feira para discutir a crise síria.

Tzachi Hanegbi, veterano deputado próximo a Netanyahu, afirmou que o governo israelense busca evitar "um aumento na tensão com a Síria, deixando claro que, se há atividade, é contra o Hezbollah, e não contra o regime Assad". / Com AP

 
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