ONU se questiona sobre legitimidade da guerra

Um dia após a jornada mais negra da história da Organização das Nações Unidas (ONU), o Palácio da Paz se retorce entre as cinzas da democracia. Amanhã, alguns chanceleres de países pertencentes ao Conselho de Segurança (CS) da ONU estarão em Nova York para uma reunião com Hans Blix, o chefe dos inspetores de armas químicas e biológicas da entidade no Iraque, apesar das ausências do secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, e de seu colega britânico, Jack Straw.Foi o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, quemartelou na noite de ontem os pregos no ataúde das inspeções. Com um tom severo e ar de policial do mundo, sentenciou que "o Conselho de Segurança não esteve à altura de suas responsabilidades. Nós estaremos à altura das nossas".Bush deixou as migalhas para a ONU: um "papel adequado" na administração do pós-guerra, o que pode ser traduzido, secomprovadas as indiscrições de analistas de Wall Street, como uma porção microscópica dos planos de reconstrução do Iraque elaborados pela Casa Branca.Desautorizado pelos EUA, o CS insistiu, no entanto, para poder dar amanhã a última palavra sobre o assunto. A poucas horas do vencimento do ultimato norte-americano a Saddam Hussein, os chanceleres participarão da sessão pública com Blix, na qual ele pretende detalhar o que restava ao Iraque fazer para satisfazer as condições de desarmamento.Powell e Straw estarão ausentes. "Não vejo motivo para ir",disse o chefe da diplomacia norte-americana. "Estãoreacomodando os assentos sobre o deck do Titanic", ironizouRichard Grenell, porta-voz do embaixador norte-americano na ONU, John Negroponte.Da cúpula solicitada há alguns dias, participarão o francêsDominique de Villepin, o alemão Joschka Fischer e o russo Igor Ivanov. Talvez apareça a espanhola Ana Palacio, cujo governo patrocinou uma resolução em conjunto com EUA e Grã-Bretanha, mas que não chegou a ser apresentada.Também são esperados o sírio Farouq al-Shara e os chanceleres de Angola, Camarões e Guiné, que chegaram hoje a Nova York para uma reunião do CS dedicada à África.A retirada dos inspetores de armas da ONU enviados ao Iraque foi concluída hoje, mas é apenas temporária, garantiu o porta-voz da ONU, Fred Eckhard.O capítulo de ontem, quando Estados Unidos, Espanha eGrã-Bretanha abandonaram a resolução e abriram o caminho para a guerra, causou uma profunda ferida nas Nações Unidas.Um funcionário do alto escalão da ONU que pediu para não ser identificado comentou que os acontecimentos das últimas 24 horas lhe causaram "náusea".Nos bastidores da entidade, a raiva e a indignação são palpáveis e são muitos os funcionários e diplomatas que questionam em conversas particulares a legitimidade de umaguerra que carece de aprovação da ONU.Ontem à noite, Bush insistiu em que seu governo dispõe de "autoridade" para fazer a guerra com Saddam Hussein sem achancela da entidade. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, vem alertando nos últimos dias que isto não é correto."Se a ação militar ocorre sem o aval do Conselho, sualegitimidade será colocada em dúvida e seu respaldo se veráreduzido", prognosticou Annan.Nos corredores da ONU circulava hoje a possibilidade de o CS fazer um pronunciamento para condenar os Estados Unidos e a "coalizão de voluntariosos" assim que partir a ordem de ataque norte-americana.Apesar de nenhum diplomata confirmar abertamente apossibilidade, uma condenação do CS à ação militarnorte-americana seria um gesto forte, destinado a ser bloqueado pelo poder de veto garantido a Washington e Londres. O gesto é pouco provável, apesar da gravidade da situação.Em vez disso, os membros do Conselho já começam a elaborar o rascunho de uma resolução sobre o pós-guerra. O esboço prevê a criação de infra-estruturas para a distribuição de ajuda humanitária e o regresso do controle da ONU sobre o programa de petróleo por comida.Em meio à contagem regressiva para a guerra, muitos seperguntam no Palácio da Paz: "Será este o nosso futuro?"

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