ONU suspende envio de ajuda para sobreviventes em Mianmar

Organização afirma que suprimentos e equipamentos enviados às vítimas foram confiscados pela junta militar

Associated Press e Reuters,

09 de maio de 2008 | 09h03

A Organização das Nações Unidas (ONU) suspendeu nesta sexta-feira, 9, o envio de ajuda humanitária a Mianmar depois de a junta militar que governa o país ter apreendido os alimentos e os equipamentos enviados pelo Programa Mundial de Alimentação para ajudar as vítimas do ciclone Nargis. Em Rangum, Ye Htut, porta-voz da junta militar birmanesa desmentiu a versão da ONU, qualificando-a como "acusação infundada". Segundo a agência AFP, os militares decidiram aceitar a ajuda oferecida pelos Estados Unidos, citando um comunicado da TV estatal, mas sem dar detalhes sobre como a assistência seria distribuída.   Veja também:  Mianmar quer ajuda, mas não estrangeiros, diz governo   Paul Risley, porta-voz do programa, disse em Bangcoc que a ONU "não teve escolha" a não ser suspender o envio de novas remessas enquanto o assunto não for resolvido. "Toda a comida e todos os equipamentos que conseguimos reunir e enviar foram confiscados" pela junta, acusou o porta-voz. A remessa de ajuda humanitária incluía 38 toneladas de biscoitos de alto teor energético. Risley disse não saber ao certo o motivo pelo qual o material foi confiscado.   Ye Htut, por sua vez, disse horas mais tarde que o governo assumiu o controle de uma remessa enviada pelo Programa Mundial de Alimentação para distribuí-la "sem demora por sua própria conta aos habitantes das áreas afetadas". Ele rejeitou a interpretação da ONU de que a ajuda teria sido apreendida e disse querer saber de onde partiram "essas acusações infundadas". Numa mensagem de correio eletrônico enviada à Associated Press nesta sexta-feira, Ye Htut afirmou que Mianmar já deixou claro que "prioriza o recebimento das remessas de ajuda emergencial".   A recusa da junta militar birmanesa em aceitar a presença de agentes humanitários estrangeiros para ajudar as vítimas do ciclone Nargis "não tem precedentes" na história moderna do trabalho humanitário, criticou a Organização das Nações Unidas (ONU) nesta sexta-feira. E enquanto a junta parece sobrecarregada e confusa com a pior catástrofe natural de que se tem registro em Mianmar, mais de 1 milhão de pessoas esperam por comida, abrigo e medicamentos. Muitos flagelados têm procurado monastérios budistas ou simplesmente acampado ao relento.   Quase uma semana depois da passagem do ciclone, aldeias inteiras ainda estão submersas e corpos são vistos flutuando enquanto crianças penduram-se no pescoço dos pais para atravessar as áreas alagadas. Há pelo menos 62.000 pessoas entre mortos e desaparecidos.   Grupos humanitários têm advertido que milhares de crianças podem ter ficado órfãs e que um desastre sanitário está prestes a acontecer. A ONU calcula que 1,5 milhão de pessoas tenham sido "gravemente afetadas" pelo ciclone e manifestou-se preocupada com a retirada dos corpos.   Apesar de ter aceitado ajuda internacional, a junta que governa o isolado país do sudeste asiático negou vistos a agentes humanitários estrangeiros para que pudessem avaliar a extensão do desastre e gerenciar a logística das operações. "A frustração causada pelo que parece ser uma demora burocrática não tem precedentes na história moderna dos esforços de ajuda humanitária", disse em Bangcoc um porta-voz do Programa Mundial de Alimentação da ONU. "É espantoso!". Ele afirmou que o programa da ONU deu entrada em dez pedidos de visto em embaixadas de Mianmar em diferentes países, mas nenhum deles foi aprovado até o momento.   Mianmar afirmou nesta sexta que vai aceitar ajuda material do exterior para as vítimas do ciclone Nargis, mas não precisa da presença de trabalhadores humanitários estrangeiros, segundo a chancelaria do país, após uma equipe de resgate do Qatar chegar a Rangun num vôo que foi mandado de volta.  "Mianmar não está em condições de receber equipes de resgate e informação de países estrangeiros", disse a nota divulgada pelo Myanma Ahlin, jornal oficial do regime militar.   Oficialmente, há cerca de 23 mil mortos e 42 mil desaparecidos, embora os especialistas temam que o número de vítimas fatais possa chegar a 100 mil. Poços, arrozais e silos foram contaminados com água salgada, e há uma gigantesca tarefa de auxílio e resgate a cumprir. Nas aldeias atingidas, as crianças estão na situação mais vulnerável. As zonas inundadas estão infestadas pela malária. Os moradores já começam a reconstruir suas casas, mas ainda não receberam a presença de militares ou de qualquer órgão público para lhes auxiliar.   Matéria atualizada às 11h50.  

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