ONU suspende missão de enviados à Síria

Observadores alegam falta de segurança e de vontade das partes em solucionar conflito

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h03

Os observadores da ONU anunciaram ontem a suspensão sua missão na Síria. Oficialmente, a decisão foi tomada em razão da situação geral de insegurança e a constatação de que os 300 observadores internacionais não tinham mais sua proteção garantida pelo governo. A interrupção do trabalho é o indício mais claro do fracasso do mediador Kofi Annan de evitar uma guerra civil na Síria.

Robert Mood, o general norueguês que coordena os esforços na Síria, anunciou ontem que as patrulhas de seus soldados desarmados deixarão de ser conduzidas por enquanto e que os contatos com o governo e rebeldes serão reduzidos ao mínimo necessário. A missão alega que já não existe "vontade" do governo ou dos rebeldes para cumprir o plano de paz negociado por Annan. As principais potências organizam uma reunião amanhã no México à margem da cúpula do G-20 para debater os próximos passos no país.

Ontem, na ONU, diplomatas indicaram que a suspensão da missão não significa o fim oficial dos esforços de mediação, mas na prática esse é o sinal mais claro até agora de fracasso do esforço lançado em abril. Enquanto o cessar-fogo estava em vigor, mais de 2 mil pessoas teriam sido mortas nos confrontos. Em 15 meses, houve 14 mil mortes segundo levantamentos da oposição. Segundo os monitores, o motivo da suspensão é "uma intensificação da violência armada na Síria durante os últimos dez dias", desde que rebeldes anunciaram que não viam mais motivos para manter seu compromisso de cessar-fogo, enquanto o governo de Bashar Assad continuava com seus massacres.

A situação tem levado a discussões dentro da própria ONU. Annan insistia que não se poderia declarar o fracasso da missão, sob o risco de ver eclodir uma guerra regional que poderia sair do controle. O ex-secretário-geral da ONU tem insistido que, sem sua mediação, a única opção seria um confronto aberto. De outro lado, Mood vinha argumentando que seus homens não poderiam continuar saindo às ruas das cidades sírias sabendo que haviam se transformado em alvos.

Nas últimas duas semanas, os comboios da ONU foram atingidos em diversas ocasiões por tiros quando tentavam chegar a vilarejos onde massacres teriam ocorrido. "A escalada da violência limita nossa capacidade de observar, verificar e informar, assim como apoiar o diálogo local e os projetos de estabilidade", disse Mood. "A violência basicamente impede que possamos cumprir nosso mandato", apontou.

Mood denunciou ainda a "falta de vontade por parte das partes para buscar uma transição pacífica". Segundo ele, há "movimentos em direção a um posicionamento militar por ambos os lados". "Civis, inocentes, homens, mulheres e crianças estão sendo assassinados a cada dia", afirmou.

Para Mood, a situação atual "implica riscos significativos para os observadores". "Os observadores permanecerão em suas posições até nova ordem", indicou. Mood disse que a suspensão será revisada a cada dia. Mas as operações somente voltarão a ocorrer quando haja um cenário "adequado para retomar as atividades do mandato".

Ataques. O Observatório Sírio para Direitos Humanos alertou ontem que tropas estavam bombardeando partes de Homs e de Damasco. Pelo menos 60 pessoas morreram pelo país. Em Homs, mil famílias estão encurraladas em suas casas segundo a oposição, em meio aos combates entre rebeldes e governo. Dezenas precisariam ser removidas.

Para Rami Abdul-Rahman, um dos líderes do Observatório, chegou o momento de as equipes da ONU abandonarem a Síria e Annan constatar publicamente seu fracasso. "Não vemos nenhum benefício com sua presença", disse. "Tanto faz se são independentes. Muitos crimes ocorreram na Síria e eles não puderam fazer nada", completou. A missão foi enviada depois que Annan recebeu garantias pessoais de Assad de que o acordo de paz seria respeitado.

Em comunicado, o governo sírio responsabilizou "grupos terroristas apoiados por países árabes e estrangeiros" por ignorar o acordo com a ONU. "O governo sírio reafirma seu respeito pelo plano e seu compromisso com a segurança dos observadores", diz o texto.

Amanhã, os chefes de Estado das principais potências devem debater a situação na Síria, aproveitando a reunião do G-20 no México. A resistência da Rússia e China em aceitar sanções e a hesitação do Ocidente de se lançar em mais uma guerra, em plena crise financeira internacional, tem impedido uma ação.

Documentos da ONU obtidos pelo Estado indicavam há uma semana que a entidade esperava a preparação para uma guerra interna. Dias depois, um alto funcionário qualificou a situação de "guerra civil", classificação rejeitada por Damasco.

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