AFP / FABRICE COFFRINI
AFP / FABRICE COFFRINI

ONU suspende negociação de paz sobre a Síria em Genebra

Essa era a terceira tentativa de colocar um fim para a guerra, que já dura quase cinco anos; com 260 mil mortos, o conflito é considerado a 'pior crise humana do século 21'

Jamil Chade - CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2016 | 16h07

(Atualizada às  22h00) Diante dos ataques russos no norte de Alepo e importantes vitórias militares do governo de Bashar Assad contra a oposição, fracassa a tentativa da ONU de mediar um acordo de paz na Síria e o processo que durou apenas cinco dias em Genebra é suspenso. 

Nesta quarta-feira, 3, a ONU se recusou a chamar o incidente de “colapso” e garante que apenas está fazendo uma “pausa temporária” no diálogo. Uma nova tentativa será feita a partir do dia 25. Mas a oposição alerta que não voltará a negociar enquanto os ataques da forças do governo e da Rússia não forem suspensos. Diplomatas envolvidos no processo admitem que dificilmente a negociação será restabelecida se o atual cenário for mantido.

Representantes de Assad em Genebra optaram por acusar a oposições pelo fracasso da negociação. Para o embaixador sírio Bashar Jaafari, os rebeldes que negociavam na Suíça estavam operando "sob as ordens dos sauditas, Catar e Turquia". "Eles queriam o fracasso do processo", disse.

“Estamos partindo de Genebra e não voltaremos enquanto nossas exigências não forem atendidas”, declarou o chefe do grupo de oposição, Riyad Hijab, que sofreu importantes derrotas no campo de batalha enquanto o processo negociador começava em Genebra. 

Hijab, em um encontro com emissários da ONU, acusou a entidade e as potências ocidentais de não estarem cumprindo sua palavra ao chamar para negociar, enquanto o governo avançava militarmente. 

O mediador das Nações Unidas, Staffan de Mistura, havia planejado um processo inicial que duraria três semanas, com a meta imediata de acertar um cessar-fogo. No total, a negociação duraria seis meses, colocando fim à guerra. 

Essa era a terceira tentativa de mediar um acordo de paz em cinco anos. Com 260 mil mortos, o conflito é considerado a “pior crise humana do século 21” pela ONU.

Mas, desde o início do processo no fim da semana passada, os sinais apontavam para a fragilidade da mediação. A oposição indicava que apenas negociaria se o governo desse garantias de que interromperia os ataques. Já o governo de Assad insistia que um cessar-fogo seria o resultado da negociação, e não uma pré-condição.

Na terça-feira, uma nova ofensiva em Alepo praticamente congelou o processo, algo que seria confirmado hoje por Mistura, numa coletiva de imprensa que sequer ocorreu na sede da ONU em Genebra. 

De fato, em nenhum momento a oposição representada pelo Alto Comitê Negociador, com sede em Riad, foi até a ONU, justamente para indicar que não estava oficialmente no processo de paz. Os encontros estavam ocorrendo em um hotel de luxo da cidade. 

“Esse não é o fim do processo e não é o fracasso das negociações. Ambos os lados vieram até Genebra e ambos querem um processo político”, disse Mistura depois de se reunir com Hijab. A esperança era de garantir, em seis meses, uma transição política, com uma nova constituição e eleições. 

O mediador, porém, admitiu que os EUA e Rússia terão de agir para garantir que haja um diálogo entre as partes. "Francamente, mais trabalho será necessário, não apenas por nós, mas pelos envolvidos no processo", disse Mistura, numa referência às potências estrangeiras. "Disse desde o primeiro dia que eu não manteria o diálogo apenas por manter o diálogo", afirmou.

Para uma das representantes da oposição, Farah Atassi, não havia como continuar a negociar "enquanto nosso povo está sendo atacado em suas casas". "Viemos negociar. Mas não vamos abrir mão do que queremos, que é parar o sofrimento do povo. Pedimos que os aliados do governo coloquem pressão para que os ataques sejam suspensos", disse. Segundo a oposição, 300 civis morreram em ataques do governo e das forças aéreas russas em apenas cinco dias de negociações em Genebra. 

Mas foi uma derrota importante da oposição em Alepo nesta semana que marcou o fim do processo negociador, pelo menos por enquanto. As forças de Assad teriam rompido um cerco a duas cidades xiitas no norte de Alepo, Nubl e Zahra. 

A vitória militar representa o fim de um confronto que, no local, já durava três anos em cidades controladas pela oposição. Segundo os rebeldes, isso apenas ocorreu graças aos ataques aéreos dos russos. 

Apenas hoje pela manhã, 16 operações aéreas foram conduzidas, com 30 mortos. A ONU indicou que "centenas de famílias foram deslocadas" da região.

O governo de Assad ainda indicou que estava cortando uma rota de acesso para os rebeldes na província de Alepo. Para o Alto Comitê Negociador, isso apenas provava que Damasco não estava em Genebra para negociar. 

"Esses ataques estão ocorrendo para nos colocar pressão na mesa negociadora", alertou Riad Nassan Agha, porta-voz da oposição em Genebra. "O processo político não existe", lamentou. 

O chanceler russo, Sergei Lavrov, declarou que seu país "não pensa em suspender a campanha militar". Mas insiste que ela visa apenas alvos controlados pelo Estado Islâmico. A oposição rejeita essa posição. "Não sei por que esses ataques aéreos deveriam parar", disse Lavrov. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.