ONU terá papel importante na reconstrução do Iraque

A Organização das Nações Unidas (ONU) poderá voltar a ter um papel importante na crise iraquiana mais rapidamente do que se imagina, já no início da fase de reconstrução do Iraque, na área da ajuda humanitária. Por enquanto, as respostas do governo dos Estados Unidos são ainda incertas, não apenas no setor de ajuda humanitária, mas também quando se trata da divisão dos papéis relativos à administração.Sabe-se apenas que três generais dos EUA deverão se impor numa primeira fase de transição, os dois primeiros anos, quando a direção será do general Tommy Franks, comandante da operação militar no Golfo. Somente depois de encerrada a "Operação Liberdade", e se tudo correr bem, o país será entregue a novos administradores civis iraquianos, levando em conta que 54% da população é de origem xiita, 24% sunita (atualmente no poder) e 22% curda, no norte do país.A hipótese da nomeação de um administrador da ONU, como foi o caso nas recentes crises do Kosovo e do Afeganistão, parece estar afastada. Até mesmo a Grã-Bretanha teme um longo controle sobre o Iraque.O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, aventou a possibilidade, quando de seu discurso nos Açores, de que a ONU seria novamente chamada para se pronunciar sobre a administração e a reconstrução do Iraque, uma forma de se associar de novo ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, restabelecendo o seu papel. Ainda hoje, o ministro francês do Exterior, Dominique de Villepin, reafirmou que só as Nações Unidas têm legitimidade suficiente para a reconstrução do Iraque.A ONU deverá ser convocada tão logo EUA e Grã-Bretanha tenham se livrado de Saddam Hussein. Os primeiros contatos já estariam ocorrendo, por intermédio do governo britânico, que deverá desenvolver um papel importante na área da ajuda humanitária. Isso explica, por exemplo, a permanência no gabinete da ministra do Desenvolvimento Internacional da Grã-Bretanha, Claire Short, que já manteve contatos com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Short havia ameaçado renunciar, contra a guerra.A meta é cuidar rapidamente dos problemas de proteção e abastecimento da população civil. Claire Short não perdeu tempo e na quarta-feira se reuniu com Kofi Annan para estudar a modalidade da retomada da cooperação com a ONU, por meio do relançamento do programa "petróleo por alimentos". Esse programa foi interrompido no dia 17 de março, quando os funcionários das Nações Unidas tiveram de se retirar de Bagdá.Nos próximos dias poderá ser aprovada uma resolução dando sinal verde à ONU para voltar a se ocupar dos problemas humanitários do Iraque, entregando a operação "petróleo por alimentos" ao controle de Kofi Annan, o que poderia garantir sua própria continuidade. É preciso lembrar que 60% da população iraquiana, cerca de 16 milhões de pessoas, depende das rações alimentares distribuídas por esse programa.A designação da ONU como responsável por esse programa facilitaria também a cooperação com outras agências e organizações não-governamentais (ONGs) que desconfiam de uma grande proximidade com as forças de ocupação norte-americanas e britânicas. Isso apesar de o secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, ter garantido hoje que as tropas dos EUA não pretendem permanecer no Iraque um dia a mais do que o necessário, uma fórmula vaga, mas que não deixa de constituir uma promessa de curto prazo. Os norte-americanos estão conscientes de que uma administração militar prolongada seria problemática.Londres, por exemplo, deseja a instalação, o mais rápido possível, de uma administração civil, procurando tranqüilizar países vizinhos, entre eles o Irã, um dos que mais temem a existência de um governo militar provisório e de longa duração no Iraque.Quanto à reconstrução propriamente dita do Iraque, os estragos que a guerra vai provocar deverão favorecer seis grandes grupos empresariais norte-americanos, que dividirão a reconstrução de eventuais poços de petróleo destruídos, mas também pontes e imóveis. A outra metade das obras será distribuída aos outros países da coalizão, reservando-se uma boa parte do bolo aos britânicos, mas nada ou só migalhas aos países da "frente de rejeição", França e Alemanha.Veja o especial :

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