ONU: tortura no Iraque pode ser pior do que sob Saddam

O relator da ONU contra a Tortura, Manfred Nowak, informou nesta quinta-feira que os resultados de sua investigação no Iraque revelaram que a questão da tortura no país pode estar pior hoje do que durante o regime de Saddam Hussein. O relatório, apresentado perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU e que registrou a ocorrência de 6,6 mil mortes em 60 dias no país, foi contestado pelo governo dos Estados Unidos e representantes iraquianos. Nowak confirmou que não foi até Bagdá para preparar o documento por questões de segurança e por não ter sido convidado pelo governo local a fazer as visitas necessárias às prisões. Mas, em declarações ao Grupo Estado, explicou que as conclusões foram tiradas a partir de informações dadas por pessoas que sofreram torturas, além de documentos de organizações internacionais e de entidades não-governamentais acostumadas a lidar com a questão. Os números das Nações Unidas apontam para um incremento do número de mortos nos últimos dois meses em relação ao período anterior, quando os assassinatos chegaram a 5,9 mil. "A situação atual de violência e tortura está fora de controle", disse Nowak, professor de direito na Áustria e responsável da ONU por investigar casos de tortura. "A situação é tão ruim que muitas pessoas dizem ser ainda pior que a que existia durante o governo de Saddam. Claro que sei que durante o regime ditatorial o cenário era catastrófico, mas hoje também é muito grave e quem diz isso são as pessoas e entidades que conhecem o local há muito tempo e que nos alertam que a deterioração da violência é tão grande que pode ser pior que a que existia antes", explicou. Algumas das alegações de tortura são inquestionáveis, continuou Nowak, que acrescentou que "há fortes indícios de tortura em centros oficiais de detenção"."Temos os grupos terroristas, os militares, a polícia e essas milícias. São muitas pessoas abduzidas, seriamente torturadas e mortas", disse o relator em entrevista coletiva na sede da ONU em Genebra.Nowak conta que encontrou com as vítimas na Jordânia. "Levei um médico legista comigo para que pudesse me dizer se de fato as violações corporais existiram. Não tenho dúvida de que essas alegações de tortura são verdadeiras", afirmou o relator ao Grupo Estado. "Os relatos que temos são assustadores e apontam para corpos com ferimentos com ácido e outras substâncias, além de olhos arrancados e choques elétricos", continuou. Entre os torturadores, forças oficiaisO autor do relatório conta que os responsáveis por esses atos são milícias privadas e terroristas. Policiais e forças governamentais também seriam responsáveis por esses atos em prisões. A violência é alimentada pela disputa entre xiitas e sunitas dentro do país.Um outro relatório divulgado nesta quinta-feira pela Missão de Assistência da ONU do escritório de Direitos Humanos no Iraque também citou evidências de tortura, detenções ilegais e um crescimento no número de milícias sectárias e esquadrões da morte. Além disso, há evidências de crescimento nos "assassinatos de honra" contra mulheres.O governo do Iraque, estabelecido em 2006, está "enfrentando atualmente um colapso no sistema legal que representa um sério desafio" à polícia, forças de segurança e ao sistema legal do país, informa o relatório, destacando a tortura como principal preocupação.

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